27 de outubro de 2009

ESCULPIR A PRÓPRIA EXISTÊNCIA

Escultura, desenho e fotografia na inauguração da exposição de João Cutileiro em Bragança

Autenticidade e economia na concepção do modelo são realidades conceituais do criador

João Cutileiro, um dos grandes nomes do nosso tempo, artista reconhecido nacional e internacionalmente, marcou estatuto na concorrida inauguração da sua exposição no Centro de Arte Contemporânea Graça Morais, no dia 24 de Outubro. Escultura, desenho e fotografia são áreas onde o criador investe o fruto de uma vida de trabalho vasto, intenso e multifacetado.
Com uma dúzia de esculturas, a ênfase desviou-se para as duas “expressões menos divulgadas” de João Cutileiro. O desenho de mulheres nuas, com 14 obras gravadas em diorito negro polido e mais 12 a fundo branco, num total de 26. A fotografia, a segunda “expressão artística”, realiza-se com cerca de 40 retratos a preto e branco de pessoas e situações.
Em testemunho directo, ao Jornal Nordeste, o homem escultor, arte plástica que mais o reivindica, afirma as suas obras como sendo geradoras de ódios e paixões. Dos vários temas desenvolvidos, destaca o amor, o desejo e a plenitude do ser, aclamando o dos corpos femininos como o mais figurativo. "As Meninas de Cutileiro", como o próprio lhe chama.

Na sua douta experiência de 72 anos, as suas obras são criadas por inspiração divina, paixões, receios e cenas intimistas. Com uma atitude independente e liberta de estereótipos, podemos considerar João Cutileiro como sendo o inspirado e o inspirador pela grande viragem da escultura portuguesa nos anos 80 e pela ruptura com a estatuária oficial, fazendo-a evoluir do classicismo estilizado para uma nova era completamente liberta da iconografia vigente.
Permanecendo na crença de que é, e passo a citá-lo, "um fazedor de objectos decorativos destinados à burguesia intelectual do ocidente", postula que toda a arte tem uma função decorativa, logo, todos os escultores são manufactureiros de objectos decorativos, esculpidos de “uma forma quase cósmica com a descoberta das máquinas abrasivas de alta velocidade”.

DESDE O PRINCÍPIO DOS TEMPOS...


No passado, da caça e da pesca dependia a sobrevivência do Homem. No presente, além de hobbie, é, sobretudo, um luxo e poucos de si dependem…

O Centro Empresarial de Bragança voltou a ser palco da Norcaça & Norpesca 2009, que decorreu de 22 a 25 de Outubro. O destaque vai para as mudanças na entrada do certame, onde foi inaugurada uma floresta artificial, providenciando um ambiente mais natural, enriquecido por fauna e flora tipicamente transmontana. Em termos de afluência, a organização não quis avançar números mas sabe-se que os dois primeiros dias foram os mais fracos.
No sábado, verificou-se o melhor dia do certame e domingo, “esteve acima das nossas expectativas”, nas palavras do vice-presidente da Câmara Municipal de Bragança, Rui Caseiro. “A avaliação final é muito positiva, relativamente, à adesão do público. Quanto à organização, não há reparos a fazer e os expositores manifestaram a sua intenção de continuar connosco se tiverem essa oportunidade no próximo ano”, refere o autarca. Segundo o responsável, “houve um ligeiro decréscimo em relação ao ano passado que não se reflecte no nível de satisfação de visitantes e expositores”.
Um certame sectorial de negócios, onde não marcou presença todo o universo comercial de caça & pesca brigantino, e que contou no programa com momentos chave, de envolvimento da comunidade, como, por exemplo, com a visita das escolas do ensino básico à Feira, onde puderam participar como pescadores ao Achigã e à truta em lago artificial”.

No terceiro dia, sábado bem cedinho, pelas 8 da manhã, a célebre montaria ao javali. Durante a tarde, a exposição e avaliação de Cães de Caça que teve nos três primeiros lugares, respectivamente, Paulo Afonso com “Dakar”, de raça Pointer, Alípio Borges com “Zor”, de raça Setter, e Diogo Silva com “Nabor”, de raça Braco. Para terminar, depois de jantar, a VIII Passagem de Modelos Norcaça. No domingo, pela manhã, a I Taça de Santo Huberto, onde se sagraram vencedores, em primeiro lugar, Paulo Afonso e em segundo, Rui Aliste Vaz, ambos de Bragança, em terceiro, de Mirandela, Francisco Borges.

Ao final da tarde, entregaram-se as recordações aos expositores, procedendo-se, assim, ao encerramento da 8ª Feira Internacional do Norte, que contou, de forma constante, com muita animação, falcoaria, um stand da Polícia de Segurança Pública, demonstrações de técnicas e segredos de pesca e munições quanto baste para outras tantas armas de fogo.


HELENA GENÉSIO

CULTURA: O VERDADEIRO INVESTIMENTO



FACTOS

Nomeada – Helena Genésio
Lugar – Teatro Municipal de Bragança
Signo – Gémeos
Maior defeito – Teimosia
Maior virtude – Determinação
Origem – Bragança
Ofício – Directora do Teatro Municipal (desde a sua criação)

ENTREVISTA

1 @ Qual a peça, o concerto ou artista ou artistas mais aplaudidos em sete anos de existência do Teatro de Bragança?

R: Há vários géneros de palco. Dir-lhe-ia que na dança é indiscutivelmente a companhia Olga Roriz. No teatro, por razões óbvias, a artista mais aplaudida foi Eunice Muñoz com a peça “Miss Daisy”, em 2007. No ano seguinte, a Maria do Céu Guerra com o Pranto da Maria Parda também foi uma actriz sobejamente aplaudida. E foram estas duas grandes actrizes que nós homenageámos colocando uma placa no foyer. Em termos de concertos, o mais aplaudido ou, pelo menos, aquele que eu considerei como sendo o melhor, aconteceu com a Orquestra Gulbenkian.


2 @ O facto de serem os mais aplaudidos, reflecte-se na bilheteira, sendo sinónimo do seu sucesso garantido?

R: Não é sinónimo de bilheteira, pois estou a pensar, concretamente, neste concerto da Orquestra Gulbenkian, que é tão só a melhor orquestra portuguesa e teve, na plateia, cento e tal pessoas. Estava a sala a meio, de facto. É sinónimo indiscutível é de qualidade, mas nem sempre é sinónimo de grandes êxitos. Pegando nestes 7 anos de história, escolhi os exemplos mais marcantes.


3 @ E quem gostaria mesmo de trazer, a nível pessoal, ao grande palco brigantino?

R: Qualquer actor, actriz ou bailarino que tenha qualidade é sempre um prazer trazê-los. Portanto, são todos bem-vindos desde que tenham qualidade. Os bons serão sempre óptimos. Não quero eleger um porque estaria a pôr outro de parte.

4 @ Com a agenda preenchida até finais de Dezembro, qual a grande actuação / performance esperada e marcada que lhe suscita de antemão, um interesse inelutável?

R: No dia 7 de Novembro, a Companhia Olga Roriz com a Nortada. Esta companhia apresenta sempre um grande espectáculo. Este, em particular, é muito especial também para ela, já que o dedica aos pais e tem por base as Festas da Nossa Senhora da Agonia, em Viana do Castelo. Será, claramente, um espectáculo marcado pela exuberância e pela perfeição, e por todas as coisas a que Olga Roriz já nos habituou.


5 @ E o Lago dos Cisnes bem próximo do Natal? Espera casa cheia?

R: Esse é o clássico, na altura de Natal, que cai bem e que toda a gente gosta muito de ver. É uma companhia de Moscovo que vem dançar o Lago dos Cisnes. Espera-se uma sala esgotada, mas como se espera também para a Olga Roriz.


6 @ Quando falam consigo, devem pedir-lhe que traga a Bragança algo ou alguém. Qual o pedido mais comum?

R: As pessoas manifestam sempre algumas das suas vontades e, normalmente, eu mantenho-me atenta, satisfazendo até alguns dos pedidos que me fazem. No entanto, como serviço público, temos de prestar um serviço de qualidade, e há programas que não a têm. Eu dou-lhe um exemplo, o “Levanta-te e Ri” foi-me solicitado imensas vezes, mas eu recusei sempre porque não o considero um programa de qualidade. Isto é uma casa que tem de prestar um bom serviço público.
Respondendo à sua pergunta, pedem-me muitas vezes o La Féria. Naturalmente, já esteve em Bragança com a “Amália”. Ele adora Bragança, gostou imenso de trabalhar neste teatro e, sempre que tem uma estreia, escreve-me uma carta convidando-me a assistir na qualidade de Directora Artística do Teatro Municipal. O La Féria não vem mais aqui pela simples razão dos seus espectáculos não serem itinerantes. Fá-los para Lisboa e Porto, e compreendem uma logística massiva que seria impossível transportar de cidade para cidade. “Amália” foi a excepção, apresentado também no Olympia de Paris.


7 @ A posição de Vereadora da Cultura permitir-lhe-ia fazer mais pelo espectáculo e pela arte do que o seu actual cargo?

R: São coisas distintas! Gosto muito de ser directora de teatro e estou aqui por paixão, apenas e só. A missão de vereadora é nobre e tem de ser de alguém com particular sensibilidade para a cultura. Agora, aquilo que eu acho importante, e é isso que se verifica, é uma sintonia, uma colaboração e uma cooperação que tem de existir entre a vereação e as pessoas responsáveis pelos equipamentos culturais, neste caso concreto, o teatro. É fundamental! O cargo de vereadora nem sequer é apetecível para mim.


8 @ Essa sintonia, esse entendimento, de facto, existe?

R: Sim, em absoluto! Seja com a vereadora, seja com o executivo.

9 @ Na sua opinião, somos uma cidade de artistas?

R: Nem pensar! Como também não somos um país de poetas, nem de brandos costumes. Somos uma cidade com excelentes equipamentos culturais, com uma oferta cultural de qualidade equiparável a poucas. Falta é curiosidade e motivação por parte das pessoas, por um lado, e por outro, há pouca gente. Nós lançamos os desafios, cabe às pessoas comparecerem! Terem essa coragem…


10 @ Uma viagem de sonho consigo teria como destino um paraíso tropical ou uma cidade com um vastíssimo património cultural, tipo Nova Iorque com o mítico museu Guggenheim?

R: Há uma música do Serge Reggiani, um grande cantor francês de quem eu gosto muito, que diz “Venise n´est pas en Italie, Venise c´est chez n´ importe qui, c´est n´ importe où”. Essa é a história! O importante é irmos para um sítio onde nos sintamos bem, seja na Amazónia ou na pequena aldeia de Montesinho, onde eu vou diversas vezes.


11 @ Se fosse uma peça de teatro, que peça a interpretaria a si?

R: A “Mãe Coragem”, de Bertolt Brecht.


12 @ O que considera ser inaceitável num artista?

R: A arrogância.


13 @ Como é que considera o panorama cultural em Portugal?

R: Os artistas, as companhias e os produtores fazem milagres porque temos um orçamento miserável para a cultura e um Ministério dotado com metade daquilo que deveria ter.

12 @ Numa conjuntura de crise económica, pandemia, tensões bélicas e mundiais, a cultura deve continuar na mente das preocupações da classe política por ser ela uma necessidade básica do ser humano? Em que sentido?

R: Absolutamente! É preciso olhar para a Cultura, não como uma simples despesa, mas como um verdadeiro investimento. Não podemos sobreviver, temos de viver! E para viver, a cultura é importantíssima e torna-se uma peça fundamental! Tem também que ver com a qualidade de vida, com educação e formação pois é ela a grande responsável pelo diálogo entre os povos.


13 @ Qual o pensador ou escritor português que satisfaz as suas delícias?

R: Eduardo Lourenço.


14 @ Camões vê os seus versos serem banalizados pelo actual estado de coisas em Portugal. Acha que os políticos faltaram às aulas quando a matéria versada incidia nele próprio?

R: Isso não é apanágio dos políticos! Há alguns interessantes, que eu admiro, outros, nem por isso. Uns preocupam-se com a sua formação e outros não. Daí haver políticos que são grandes humanistas e haver outros que são apenas e só, grandes politiqueiros.


15 @ Qual o seu sentimento predominante em relação à poesia? As pessoas ainda acreditam ou é uma forma de arte em desuso?

R: Para mim, a poesia é um lugar sagrado. Na perspectiva em que assim a considera Sophia de Mello Breyner. É a casa, o lugar primeiro…