14 de outubro de 2010

BELO OUTONO INVERNO

Cristina Alves, Julia Melnykova e Gonçalo Santana abrilhantaram a praça central da nona edição do Bragança é Moda

O comércio local desfilou mais uma vez na Praça Camões, na apresentação da colecção Outono / Inverno da Associação Comercial, Industrial e Serviços de Bragança (ACISB). A 29 de Setembro, manequins profissionais da Best Models misturaram-se com amadores, eleitos através de um casting, e as crianças foram, uma vez mais, a sensação tão bem conhecida da passerelle.
A anfitriã do espectáculo de, aproximadamente, hora e meia, foi a repórter de exteriores do programa “Portugal no Coração” da RTP1, Cristina Alves, que iniciou as hostes para uma moldura humana afável e repleta numa noite quente de Outono.
Julia Melnykova e Gonçalo Santana, agenciados da Best, foram os modelos mais sonantes de um alinhamento onde se destacaram três novidades como, de resto, tem vindo a ser apanágio por parte da ACISB. O trial extremo de Nuno Cardoso e André Castro, a dança hip hop da responsabilidade de “The Locking” e alguns trechos de música lírica interpretados por uma dupla feminina foram os momentos que, não directamente ligados à moda, iluminaram e enriqueceram o desfile.
“Já habituámos as pessoas a espectáculos de qualidade, com a passagem de modelos top e esta é, também, uma forma de dar algum alento ao comércio tradicional. Dar-lhe a oportunidade de mostrar aquilo que tem, publicitá-lo... Queremos afirmar a marca Bragança é Moda ”, declarou o presidente da ACISB, José de Carvalho.
Com uma produção a cargo da empresa Eusébio Rodrigues, desfilaram na passerelle brigantina onze lojas, sendo que, nove foram de roupa e duas de adereços.















   
    

10 de outubro de 2010

ROCKY: A LENDA

Com apenas 16 anos, João edificou o gang de elite Ducky Boys, começando por expandir o seu domínio ao submundo parisiense no combate armado ao racismo (em cima, foto actual)

Em meados dos anos 70, mais de 20 por cento da população francesa era fiel às políticas do partido de extrema-direita Frente Nacional, criado em 1972 por Jean Marie Le Pen. Estávamos numa época em que a imigração em França atingia o seu auge. Numa época em que, todos os dias, a comunicação social relatava agressões a pessoas de cor, judeus, árabes, orientais e pessoas oriundas de outros países europeus, João decidiu insurgir-se contra esta violência, aniquilando-a com mais violência. Aos 16 anos, ele fundou o seu próprio gang. Estávamos no ano de 1984, quando os Ducky Boys se formaram pelas mãos, literalmente, do jovem idealista português, mais conhecido por Rocky.
João Manuel Cordeiro nasceu em Sendim da Ribeira, Alfândega da Fé, corria o ano de 1966. A sua infância permaneceu bem entregue ao cuidado dos avós em Portugal. Na adolescência, viajou, de férias, até França, onde os pais estavam emigrados. Com 13 anos, a visita ganhou um carácter permanente e João passou a ser, também ele, um francês adoptado.
Naquele tempo, os fascistas, cujo mote era “França aos franceses”, constituíam um perigo concreto, fomentavam movimentos e angariavam seguidores por cada esquina. Era a expansão de um autêntico mercado auto-proclamado violento contra todos os não franceses.
“A princípio, a nossa luta começou contra os sudistas (designação para gangs nazis). Só que nos confrontos ganhávamos sempre. Então, eles pediram ajuda aos skinheads. Ao sector racista”, lembra Rocky. "Foi aí que começámos a marcar em todo o lado, Ducky Boys: Chasseurs de skins (Caçadores de skinheads). Fui o primeiro a usar essa expressão”, realça.


Na época, incontáveis gangs procuravam o domínio de territórios na paisagem urbanística parisiense. “Mas caçadores de skins só nós é que nos considerávamos. E cada vez que os encontrávamos batíamos neles”, conta o líder do grupo multi-étnico Ducky Boys. Eles eram os mais respeitados, os mais temidos, os mais organizados, e, também, os mais bem treinados. Era uma espécie de grupo de elite, constituído, apenas, por campeões e professores de artes marciais, oriundos do Muay Thai, full contact e Taekwondo. “Muitos eram professores de artes marciais. Depois, tínhamos alguns campeões e treinávamos todos os estilos uns com os outros. De maneira a aperfeiçoarmo-nos. Nos anos 80, ainda eram poucos aqueles que lutavam assim”, salienta. Após confrontos com um gang rival, quase todos os elementos envolvidos ficavam feridos. Alguns, com bastante gravidade. “Há coisas que eu não posso contar!”, reitera.

Os media franceses nacionais e internacionais projectaram, em cobertura mediática, a imagem de Rocky como lutador de rua e cabecilha de um poderoso gang

Numa luta sem igual contra os skinheads e todos os movimentos nazis e fascistas, a popularidade dos Ducky Boys e a sua reputação nas ruas permitia-lhes serem contratados para trabalhos legais. Desde segurança da Festa da Humanidade (semelhante à Festa do Avante), das manifestações da Confederação Geral do Trabalho, dos festivais de música do SOS Racismo, entre outros.
A curiosidade sobre o homem que controlava Paris proporcionou a Rocky o reconhecimento e cedo o seu grupo começou a fazer capa de inúmeros jornais e revistas como o “Globe”, “Paris Match” ou “New Look”. Em cinema, participaram no filme Furie Rock e, em televisão, foram objecto de reportagens e documentários como “ANTIFA: Chasseurs de skins”.
“Ao aparecermos na televisão, nos jornais e revistas, isso fez com que a juventude quisesse aderir, mas eu não aceitava toda a gente. Tinham de ter a força física, a força mental, tinham que se identificar com o grupo, adaptar-se e a maioria não estava apta. Então, faziam grupos à parte, à nossa imagem”, relata. Foi o caso de uns rapazes que queriam fazer parte dos Ducky Boys. Como eram muito novos, Rocky não os deixou entrar. Então, eles formaram o seu próprio bando, os míticos Ruddy Fox.
Parte dos gangs existentes em Paris era leal aos Ducky Boys e, apesar de, a alguns, João lhes ter negado entrada no seu grupo restrito, não os excluía. Pelo contrário, orientava-os, instruía-os e resolvia muitos dos seus conflitos. Num sistema de rede, que funcionava como uma família, o grupo do português era a cabeça do polvo com os seus vários tentáculos noutros gangs.
Com um knowhow similar ao crime organizado, distribuíam propaganda, eram distinguidos pelos símbolos que ostentavam seguros de si, ouviam música dos anos 50, pré-Elvis Presley, e baseavam-se numa metodologia de treino físico envolto em coragem.
“Naquele tempo, ser skin/racista era um efeito de moda. Muitos aderiam para poderem andar em grupos. A partir do momento em que começámos a atacá-los, a magoá-los, metade dos skins desapareceu. Só ficaram os mais radicais e organizaram-se como nós nos estávamos a organizar”, frisa.

Tacos de baseball, anéis, cintos, pit bulls e outras, foram as armas dos Ducky Boys que inspiraram e serviram de modelo aos gangs modernos

Nos dois primeiros anos, todos os elementos dos Ducky Boys andavam com um taco de baseball. Devido às batalhas e ao crescente número de feridos, a polícia, mais atenta, apertou o controlo. “A partir daí, usávamos armas de disfarce: os anéis, os cintos, botas com biqueira de aço, onde, ainda colocávamos umas aplicações cortantes, mas o nosso treino e a nossa coragem eram o essencial”, sublinha o líder.
A criação de pit bulls para venda e o seu uso como cães de ataque foi outra novidade no meio. “Começámos a usar os pit bulls em 88 para atacar os skinheads. O meu pit chamava-se Max e era tão perigoso como uma arma. A única diferença é que não era proibido”, sustenta.
Os Ducky Boys mantiveram-se em actividade durante 13 anos, protagonizando acções tão incisivas e tantas vezes violentas, que os seus feitos chegaram a ser debatidos na Assembleia Nacional francesa. Após esse período, João decidiu regressar. “Quando vim, em 1996, os skinheads já não representavam uma ameaça para a sociedade. Os meus pais, também, me tinham comprado uns terrenos e pensei que aquele fosse o momento oportuno para regressar a Portugal e mudar de vida”, confessa Rocky.
“Ainda, hoje, recebo pela internet mensagens de pessoas, principalmente, de cor e árabes, a agradecerem-me por aquilo que eu fiz!”, conta orgulhoso, por ter ajudado a erradicar o racismo, ter apoiado algumas pessoas perante a tamanha adversidade de serem estrangeiros num país estranho e ter educado outras para os "ideais franceses” de igualdade, liberdade e fraternidade entre raças, credos e nações.
Actualmente, com 43 anos, João teve a primeira filha, agora, com 4 semanas. E não coloca, sequer, a hipótese de voltar a França. “Chega o momento em que tens mulher e filha e tens de ser responsável. Hoje, temos um milagre que é a Internet, que me permite dar ordens como se estivesse presente. Ou seja, continuo a ter a minha acção, mas sem ser activa”, adianta.
A descriminação e o racismo em França são temas que voltam a estar sobre a mesa. Sobretudo, depois do presidente Sarkozy ter expulsado os ciganos do “seu” país. Actualmente, a Frente Nacional conta, ainda, com cerca de 18 por cento das intenções de voto e a imigração em França volta a estar na ordem do dia.

João (Rocky), sempre, ao centro.

"AQUI JAZ A MINHA CASA"

“Um olhar sobre o despovoamento do território transmontano na pele da primeira pessoa” por dois jovens da região"

Rui Pilão, realizador, e Aurora Morais, produtora, terminaram no dia 19 de Setembro as filmagens da média-metragem “Aqui jaz a minha casa”. A acção desenrola-se numa aldeia abandonada e acompanha o último dia de um homem que tem como única companhia o seu cão Tobias e as recordações de outrora. À conversa com os dois jovens, eles explicam a origem e a materialização do projecto que levou, somente, dois fins-de-semana em gravações.
“Esta ideia surgiu numa conversa de café em que o Rui sugeriu uma imagem para a exposição de fotografia que Aurora estava a produzir sobre Trás-os-Montes para a Festa do Avante. Como a imagem sugerida não se enquadrava no conceito da exposição, mas estava muito rica em detalhes e história, decidiu-se, então, aproveita-la para algo maior”, revelam. Da fotografia, nasceu a curta-metragem e, a partir do conto que Aurora escreveu, Rui fez o argumento.
Assim surgiu a curta-metragem, que, no entanto, virou média, sobre o despovoamento e a solidão a que a gentes das aldeias estão cada vez mais vetadas. “Sem querer revelar o final, a história retrata o último dia de um velho que vive sozinho numa aldeia. É sobre o despovoamento nas aldeias e é esse tema que tentámos dramatizar ao máximo, procurando chocar as pessoas”, desvenda Rui.
Sendo naturais da terra transmontana, Aurora e Rui decidiram avançar com este projecto mesmo sem apoios financeiros numa tentativa de alertar para um problema social inquietante e actual, assim como dar a conhecer a região de onde são naturais. “Tentámos arranjar apoios, mas conseguimos, apenas, o alojamento, por parte da Câmara Municipal de Vinhais, e respectivas autorizações da Junta de Freguesia de Vilar de Ossos e uma almoço da junta de Tuizelo”, informam os jovens, descontentes quanto à falta de apoios. Mas que, nem por isso, desanimaram. “É muito complicado! Estamos a fazer isto com as nossas mesadas. Eu sou estudante, o Rui acabou o curso há pouco tempo, e há muitas coisas que têm de ser pagas. Mas quando as pessoas virem os resultados, vão-se arrepender de não nos ter ajudado!”, avisa Aurora.


Com uma duração máxima de 35 minutos, o protagonista do filme é o actor/encenador Leandro do Vale. Formado pelo Conservatório de Lisboa, este brigantino tem dedicado a sua carreira à promoção da actividade teatral fora dos grandes centros e é, actualmente, o director Artístico do Teatro em Movimento. “Ele adorou, achou muito interessante o projecto e avançámos”, afirma Rui. Para além de Aurora, Rui e Leandro do Vale, a equipa é constituída por mais dois elementos de Braga: o director de fotografia, Tiago Ribeiro, e o operador de câmara, Sérgio Castro.
“Nós estamos a exceder as nossas expectativas. A forma como nós exploramos a imagem propriamente dita, incluindo o som, acho que vai mexer com as pessoas”, anuncia Rui Pilão.
Quanto à apresentação da média-metragem, ela será enviada para alguns dos principais festivais nacionais e internacionais para ser exibida, em princípio, no próximo ano.
Os jovens transmontanos aproveitam para agradecer a todos aqueles que os apoiaram e “ajudaram de boa-vontade”, inclusive, a Teresa Martins que cedeu a sua casa e às juntas de freguesia de Vilar de Ossos e de Tuizelo.