8 de maio de 2011

"VAI HAVER FOME"

Com 85 anos, feitos a 25 de Abril, Borralho revisita o passado da “nossa” história num retrato do futuro

Ainda criança, de apenas 12 anos, partiu de casa bem a meio de uma noite de Verão. Em Guimarães, deixou o seu pequeno mundo, o único universo que tão bem conhecia. Para trás, ficou a família, a mãe e quatro irmãos. Corria o ano de 1939, quando Manuel da Silva, mais conhecido por Borralho, decidiu rumar a Bragança. Procurava fugir à pobreza que lavrava um país esfaimado, movido pela esperança de arranjar um trabalho que lhe permitisse mudar um presente de dificuldades extremas, que o flanqueavam um pouco por todo o lado. A oportunidade surgiu naquelas conversas de passa palavra, onde foi veiculada a informação de que “homens precisam-se” na região de Bragança para a construção de um troço rodoviário. E assim aconteceu… Borralho fez-se à estrada, descalço. Uma autêntica epopeia de 14 dias, acompanhado só pela fome. Nas tentativas falhadas de dormir ao relento, o luar tratava de colocar predadores de topo em alerta máximo para as suas caçadas nocturnas. E numa época em que os lobos com as suas alcateias, abundavam em número, a coragem era o requisito mínimo para uma criança se aventurar sozinha por caminhos entre florestas e montanhas.
“Eu tinha 12 anos, quando saí de Guimarães para vir trabalhar na estrada de Gimonde – Guadramil. Vim a pé, 14 dias, alguns a chover”, começa por revelar Borralho, um exímio contador da sua história, cujo início remonta há 72 anos. “Na altura, havia muita fome e passavam-se dias, semanas, sem provar um cibo de pão. Ainda chorei muito por aí acima quando fugi à minha mãe”, relembra, algo nostálgico. “Comecei em Gimonde, descalço, na estrada. Foram 27 quilómetros feitos à mão por nós e foi lá que conheci a mulher que tenho hoje”, faz questão de frisar.
Tendo completado, a 25 de Abril, a generosa idade de 85 anos, Borralho traça uma analogia entre aqueles tempos e a actualidade, recordando o 25 de Abril e comentando a presente conjuntura de crise económica e social.

“Alguns sabem quem matou Sá Carneiro, outros podiam descobrir, mas não lhes interessa”

“Uma vez, em Famalicão, o Salazar fez um discurso em que disse: da fome não vos livro, mas da guerra sim. Tinha eu sete anos, ou seis, e calhou estar lá com duas vaquitas para a feira”, recorda, aquela que é uma das suas primeiras memórias. “Escusava era de ser tão poupado! O Salazar morreu, praticamente, sem gastar um tostão. Havia muito dinheiro e ouro! Devia ter dado mais ao povo porque passou-se muita fome, muita fome! Depois de 74, começou a melhorar”, continuou.
Mas foi sol de pouca dura, já que o Fundo Monetário Internacional (FMI) entrou em Portugal logo na década de 80. Um problema que se ficou a dever, de acordo com o entrevistado, aos “incapazes” que se agarraram ao poder. “Deviam ter ido para lá homens com pulso, capazes de tomar as rédeas e dizer: é por aqui que se corta”, defende. Como defende, também, uma importante figura de Estado cujo fim trágico chocou o país. Ainda sem uma explicação plausível e em circunstâncias nunca completamente esclarecidas, o avião que transportava Francisco Sá Carneiro caiu sobre Camarate a 4 de Dezembro de 1980. “Essa morte foi muito mal contada e não se passou conforme correu por aí. Isto tem que se dizer! Agora, que houve aí alguma coisa, isso houve”, declara o octogenário. “Não sei se foi furo nos pneus, se foi furo no ar ou no chão, o que falta é adivinhar quem foi”, ironiza.

Senhor de uma grande sabedoria popular, Borralho avisa: “Vai haver fome, meu amigo. Não tenha dúvidas”

“Passado tanto tempo, como é que se justifica ainda não se ter descoberto ao certo quem foi ou porquê. Quem fez o mal, está dentro do sistema e, depois, encobrem-se uns aos outros”, explica. Quanto a Francisco Sá Carneiro, é tido, pelo entrevistado, em grande conta. “Era o homem capaz de pegar em Portugal. Devia-se era ter assassinado quem pensou nisso. Eu gostava muito dele e tenho a ideia de que se não o tivessem matado, hoje, talvez estivéssemos bem melhor”, expressa, inquieto, este pai de cinco filhos.
Manuel da Silva, não se preocupando já consigo, pela idade que carrega aos ombros, analisa, em desassossego, o futuro dos mais novos, nomeadamente, dos seus netos. “Agora, quem é que vai pagar esta crise? Há fome na mesma e quem é que vai pagar? Como sempre, são os mais pequenos. Nas aldeias ainda não se nota muito, mas para o Minho há fome, assim como nas grandes cidades e, em Bragança, começa-se a notar”, refere. “Mas isto vai ficar muito pior, antes de começar a melhorar, se melhorar. Vai haver fome, meu amigo! E mais dificuldades! Não tenha dúvida nenhuma”, sublinha Borralho, no alto do seu bem artilhado senso comum.
Apesar de tudo, dá graças pela liberdade alcançada no célebre 74: “Concordo que o 25 de Abril tenha sido bom, pois estávamos a passar por muitas dificuldades! Soubemos da Revolução dos Cravos na mina e a maior parte dos trabalhadores cantava e dançava”, narra, recordando com saudade os 34 anos em que esteve empregado na Mina da Ribeira.


Uma infância “terrível”, esquecida pelo acto de arriscar

Cercado por uma infância miserável, à fome e à pobreza somava-se a ausência paternal. Uma figura de quem o entrevistado não tem memória, pois abandonou a família, em tenra idade, com destino à América do Sul. “Estava para a Argentina e morreu lá. Éramos quatro irmãos, nascidos de seguida, um em cada ano, mas eu não o conheci. Era novo, eu tinha três ou quatro anos, nem me lembra dele”, conta Borralho. “Eu passei muita mágoa”, assevera.
O futuro apresenta-se-lhe incerto, mantendo-se à margem de grandes expectativas. “Eu estou aqui à espera do meu Comandante, que me leve. E a minha mulher, agora, coitadita, está no hospital. Está muito mal!”, confessa, visivelmente emocionado. “Eu não sei quem irá adiante, se eu ou ela, mas nós vamo-nos levar pouco um ao outro”, profetiza, assumindo uma estima indescritível pela mulher com quem partilhou o amor de uma vida. “O que será dela se eu partir?”, antecipa. Uma situação que o comove na tristeza, mais pela incerteza do bem-estar da sua companheira de sempre.



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