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29 de maio de 2012

JOÃO PAULO RODRIGUES


Entrevistado: João Paulo Rodrigues (Quim Roscas)
Profissão: Intérprete / Comediante
Idade: 33 anos
Naturalidade: Lisboa
Data de nascimento: 26 de Julho de 1978
Estado Civil: Casado
Entrevista:

“Um pé em cada mundo”

BMF – Há poucos artistas que, depois de uma actuação, fazem uma maratona de duas horas com os fãs para autógrafos e fotografias. Consideras esse um aspecto vital do teu trabalho?
JPR – Claro! Os fãs é que nos dão toda a vontade de trabalhar, é eles que nos dão o ser. Sem os fãs nada disto faria sentido. Se não vamos trabalhar para os fãs, também não vamos trabalhar para nós. Por isso, toda a atenção aos fãs é merecida e necessária. São pessoas que gostam de nós, é por elas que estamos aqui, são elas que querem que estejamos aqui, são elas que nos vêm ver, são elas que compram os bilhetes, por isso é uma obrigação de qualquer artista e faz parte da nossa noite de trabalho.


BMF – E essa dedicação toda aos fãs é já uma rotina no final dos espectáculos?
JPR – Sempre! Só se tivermos logo outro espectáculo a seguir é que não o fazemos.


BMF – Quanto à tua participação no programa televisivo “A tua cara não me é estranha”, surpreendeu-te todo o apoio que recebeste do público?
JPR – Muito! Realmente não esperava todo o apoio que tive e foi fundamental para ter ganho o programa. Devo a vitória a todo o pessoal que investiu dinheiro, apesar de eu não ter ganho nada. Quem ganhou foram as associações, mas há sempre aquele gostinho e eu devo isso às pessoas que votaram em mim. Como é óbvio, não estava à espera, mas fiquei muito feliz.


BMF – Mas que é que aprendeste de novo ao venceres a primeira edição do programa da TVI?
JPR – Eu nunca tinha feito nada daquele género. Mas já canto há muitos anos… Canto nos meus espectáculos, faço parte de uma tuna há 15 anos, já toquei num grupo de fados, já toco em bandas desde os 12 e num registo que eu julgava que era o registo do João Paulo. E no programa fui obrigado a fazer 11 registos diferentes, o que me abriu novas perspectivas.


BMF – Que artista é que gostaste realmente de imitar?
JPR – Aquele que me deu mais gozo fazer e no qual me diverti mais foi o de Chubby Checker. Eu gosto muito daquela música dos anos 70, do rock, do twist, mas o registo que mais me bateu foi o de António Variações.

BMF – No decurso do programa, o presidente do júri, Luís Jardim, teceu-te um grande elogio quando afirmou que, ao invés de teres começado como comediante, devias ter considerado logo uma carreira musical. Não tiveste essa opção?
JPR – A comédia foi o que surgiu primeiro na minha vida. Eu já toco desde os meus 12 anos, mas, até agora, nunca tinha surgido a oportunidade de ser músico ou cantor. E foi a comédia que eu aproveitei e é nela que tenho vindo a trabalhar ao longo destes 15 anos. Por isso, é óbvio que vou continuar a fazer comédia, pois é o meu ganha-pão, a minha vida e é aquilo que as pessoas estão habituadas a ver de mim. Agora, possivelmente, vou fazer alguma coisa na música. Vamos é lá ver se resulta ou não.

BMF – Vais aproveitar o embalo da fama e do reconhecimento conquistado na TVI para te lançares como artista na área da música?
JPR – Claro que sim! Já comecei a trabalhar no meu disco e estou, agora, na escolha dos temas. Vamos trabalhar as músicas e gravá-las para, depois, as tentarmos passar nas rádios.


BMF – Escolheste um ou uma mescla de estilos para o teu álbum de estreia?
JPR – Encontrei no programa um novo termo, um novo conceito, que é o Sprock. É um género musical que consiste na mistura dos estilos soul, pop e rock. Eu sou adepto do soul e é para aí que tende a minha voz, sou fanático por rock e o pop é o pop. É o que toca, percebes? E uma fusão disso tudo acho que é interessante e o mais inteligente porque, para além de eu gostar, que também é importante, é aquilo que as pessoas ouvem, que vende. Por isso, siga para a frente.


BMF – Já tens uma data definida para este teu primeiro trabalho?
JPR – Eu não gosto de fazer as coisas com um deadline. Gosto de as fazer com tempo. É óbvio que não vai demorar assim muito porque quero aproveitar o embalo do programa, mas também não vai ser uma coisa feita a correr. Quando sair, saiu.

BMF – Se tivesses de decidir entre a comédia e a música, qual seria a tua escolha?
JPR – Graças a Deus não tenho de escolher e consigo conciliar as duas. E vou fazer de tudo para continuar nos dois mundos. Porque a comédia e a música fazem ambas parte da minha vida, da minha natureza. Eu sou uma pessoa naturalmente bem disposta e engraçada, estou sempre a fazer piadas, portanto, é-me impossível deixar de ser o que sou e a música faz parte de mim, da minha vida e também da pessoa que eu sou. Eu não posso deixar de ser quem sou, tu não podes ir contra a tua natureza, por isso, nem uma nem outra nunca deixarão de fazer parte da minha vida. Em vez de ter os dois pés num, tenho um pé em cada mundo.


BMF – Nesta segunda edição, participa Luciana Abreu. Dado o vosso passado em comum, como é que verias uma final entre os dois?
JPR – Não tenho nada a dizer sobre isso… Não comento.

29 de abril de 2012

BOSS AC


“AC para os amigos”
Semana Académica de Bragança, primeira noite

Entrevista

BMF: Depois de “Preto no Branco”, em 2009, surges, este ano, com o álbum “AC para os amigos”. Como é que definirias este teu novo trabalho?

AC: Como novo (risos)! A essência é a mesma, eu acho, quando me mantenho fiel ao caminho que eu tracei e tenho percorrido ao longo deste tempo. A grande diferença deste álbum, se calhar, para o anterior é que tem um lado acústico bem mais prudente. 

BMF: Não passará também pela colaboração de artistas que tu próprio consideras “amigos”? Como Rui Veloso e Gabriel, o pensador.

AC: Sim, também. Apesar de, no passado, já ter contado com grandes participações de convidados que, também, eram meus amigos. E essa parte pode-se dizer que se mantém, a única diferença é que são outros amigos.


BMF: O último tema do teu novo álbum, Laia, é dedicado a alguém em especial?

AC: Não. Essa música até foi feita numa onda muito descontraída e até mais no gozo do que com raiva propriamente dita. Aquilo é uma música que, para quem consome o hip hop sabe, faz parte do egotripp, mas, na verdade, é para quem servir a carapuça que eu sou da paz e do amor.


BMF: Já conquistaste o respeito na cena hip hop nacional. Que outros rappers tu aprecias?

AC: Eu oiço muita coisa e sem querer a estar a esquecer me de grandes nomes, acho que há muitos projectos com pés e cabeça e o hip hop nacional está realmente a crescer e antes de nós tocaram aqui alguns nomes da região que provam isso mesmo.
 

BMF: Com quem é que gostarias de colaborar no futuro?

AC: Não sei. A esta hora nem te consigo dizer (risos). Há tanta gente com quem eu espero poder concretizar essas parcerias. 

BMF: Para além do hip hop, o que é que tu ouves por casa?

AC: Para te dizer a verdade, cada vez oiço menos hip hop. De resto, oiço quase tudo! Desde música Reggae, a Soul, R & B, Jazz, Fado, música brasileira, cabo-verdiana, oiço tudo mesmo.

BMF: Que é que te inspira, hoje em dia?

AC: Acordar! Basta acordar e abrir os olhos e respirar.

BMF: Esperavas o sucesso estrondoso alcançado pelo single “Sexta-feira”?

AC: Esperamos sempre o melhor para nós, mas, na verdade, o single “Sexta-feira” tem-me surpreendido porque tem sido uma música completamente transversal que vai dos 8 aos 80.
 

BMF: Como é que vês o actual estado de coisas do país?

AC: Basta ouvires o álbum e vês logo o estado de sítio do país. Aliás, o “Sexta-feira” demonstra bem aquilo que eu penso.
 
BMF: Achas que esta é "só" uma crise passageira ou irá manter-se ao longo do tempo?

AC: Tudo se resolve! Passageira há-de ser, agora a questão é quanto tempo é que vai demorar. Na verdade e, apesar de eu me querer manter optimista, não me parece que esta crise vá desaparecer assim tão rápido. Acho que ainda está só no princípio.

BMF: Então não tens grande esperança no futuro?

AC: Não! Tenho esperança no futuro! Agora, tenho é de ser realista. Nós temos é de estar preparados para o pior e prepararmo-nos para dar a volta por cima. Claro que se dependesse de mim não havia crise, como é óbvio. Mas dada a conjuntura actual, não me parece que esta crise vá desaparecer tão cedo.

BMF: Achas que a solução passa pela emigração como sugeriram alguns dos nossos “ilustres” políticos?

AC: Espero bem que não. Eu achei isso um completo disparate!


"...não me parece que esta crise vá desaparecer tão cedo."

26 de abril de 2012

"FOI UMA GRANDE VITÓRIA"


Entrevistado: Treinador do Carrazeda
Nome: Artur Sequeira
Idade:41
Naturalidade: Castanheiro, Carrazeda de Ansiães

ENTREVISTA

Na sua terceira dobradinha aos comandos do Carrazeda, Artur Sequeira promete lutar pela manutenção na Terceira Divisão se se reunirem os apoios necessários.
  
B.M.F. – Fez a dobradinha ao conquistar a Taça e o Campeonato. Hoje, é um treinador duplamente satisfeito?

A.S. – Sim! Estou muito realizado e contente pelo trabalho desenvolvido durante a semana e que culminou no jogo desta tarde. Temos uma equipa que se tem vindo a manter há já algum tempo, em que a maioria dos jogadores já venceu comigo o Campeonato e a Taça por três ocasiões distintas. Por isso, quer para eles, quer para mim, a sensação não é nova. 


B.M.F. – As duas únicas derrotas da sua formação no campeonato foram, precisamente, contra o Vimioso. Não esperava um resultado tão volumoso?

A. S. – Sinceramente, não. Esperava sim a vitória da minha equipa. Sabia que nos últimos jogos tínhamos vindo a jogar muito bem. Preparámo-nos e depois das duas derrotas que sofremos com eles não podíamos perder a terceira. Estudámos muito bem o Vimioso e foi uma grande vitória.


B.M.F. – Viu o jogo da Final da Taça na bancada. O que é que aconteceu?

A.S. – Eu ainda estou para saber aquilo que aconteceu. Tivemos um jogo em casa contra o Mirandela, eu disse ao árbitro que ia contestar, mas depois não contestei. Não sei o que é que ele escreveu, só sei é que fiquei um mês suspenso. Não percebo.


B.M.F. – Agora que o Carrazeda vai subir para a Terceira Divisão Nacional, quais é que são as suas expectativas para a próxima época?

A.S. – Vamo-nos preparar durante o mês de Abril para reunir-mos as condições que são necessárias para uma terceira divisão e depois, a partir daí, vamos estudar a nossa participação.


B.M.F. – Mas manter-se-á aos comandos da equipa?

A.S. – Se existirem as condições mínimas para a Terceira Divisão, continuo como treinador da equipa.


B.M.F. – Haverá saídas de alguns dos jogadores?

A.S. – Talvez possam sair um ou dois, pois há sempre jogadores descontentes, até por jogarem pouco tempo, mas estou convencido que a maioria dos jogadores, se eu ficar e se o Carrazeda for para a Terceira Divisão, 90 por cento irão permanecer comigo.


B.M.F. – Ou seja, tudo depende dos apoios que conseguirem reunir?

A.S. – Exactamente. Nós não nos podemos lançar numa terceira divisão sem saber com aquilo que contamos. Há muitas despesas e nós temos de ver durante o mês de Abril que apoios serão reunidos. Vamos trabalhar nesse sentido, para ver se conseguimos fazer um bom campeonato.


B.M.F. – O que seria para si um “bom campeonato”?

A.S. – Seria a manutenção. Estou convencido que, se eu mantiver a mesma equipa deste ano e se arranjarmos, pelo, menos, mais dois jogadores, conseguiremos, no mínimo, a manutenção.


12 de janeiro de 2012

ALLEN HALLOWEEN

Ofício: Rapper
Idade: 30 anos
Cidade: LX
Discografia: “Mary Witch”, 2006; 
“Árvore Criminal”, 2011.



 
"DEBAIXO DA PONTE" EM VÍDEOCLIP BREVEMENTE

O rapper mais dark em Portugal, considerado o artista revelação de 2011, esteve em Bragança para gáudio de muitos dos seus seguidores transmontanos. No final da sua actuação, na discoteca Mercado, garantiu o lançamento, a curto prazo, do videoclip da música “Debaixo da Ponte”.  


1 @ Com o lançamento de “Árvore Criminal”, alcançaste uma certa visibilidade entre públicos muito distintos. Como é que vês a tua ascensão e até onde é que pretendes chegar?

R: O rap não é uma coisa que possas escolher metas, eu quero chegar aqui, não, continuas a fazer aquilo que tu sentes e o caminho é normal, vais lá ter, onde quer que tu queiras ir, vais lá ter. Não há assim nada programado, não há nenhum caminho traçado. É continuares a cuspir no mic com toda a verdade que tu tens e com tudo aquilo que tu sentes.   


2 @ Mas o que é que te deixaria realmente satisfeito?

R: Desde que eu sempre que oiça a minha música e aquilo que eu estou ouvir é a verdade e aquilo me toca e também toca as pessoas, para mim já é uma vitória mano. Tás a ver? Não tenho assim nenhum objectivo. Eu gosto de fazer música para me sentir bem!


3 @ Falando deste teu último trabalho, temas como “Drunfos” ou o “O Convite” ficarão para sempre gravados na discografia do hip hop nacional. Tens essa consciência?

R: Depende! Não sei… Como é que eu te hei-de explicar? Eu esforço-me por escrever coisas que tenham alguma legitimidade. Não gosto de escrever letras para o momento. Então, se alguma música minha ficar eterna, sei lá, fico contente. Mesmo muito!


4 @ O tema “Debaixo da Ponte” é considerado por muitos como um dos melhores temas de “Árvore Criminal”. Como é que surgiu?
R: Quando fazes um álbum de rap há sempre cenas que têm de ser experimentais. E esse som é um bocado nessa onda, de brincar, experimentar para ver aquilo que sai e no fim saiu esse som. E O videoclip desse tema vai ser lançado já falta pouco. Agora, a minha cena continua a ser rap e esse tipo de sons vão-me saindo de quando em vez.


5 @ Porquê o nome de Halloween?
R: Eu sou Allen… Halloween é normal! Foi só uma alcunha que me deram.


6 @ Quando é que começaste a escrever?

R: Eu sempre escrevi, desde que me lembro. Mas rap mesmo foi em 96.


7 @ Foste eleito como o rapper mais underground português, como é que sentes essa tua nomeação?
R: Fico contente, mas eu acho que essa cena não tem assim muito valor. Deixa-me satisfeito, mas valor? Aquele valor mesmo, qual é o valor que isso tem? É naquela…


8 @ Passaste do anonimato para a ribalta. Com estatuto de figura pública, como é que observas o hip hop em Portugal?

R: Está potente mano! O hip hop é como tudo na vida. Há o menos ou mais pesado, mas a arte não se discute.


9 @ Achas que dá para viver enquanto rapper em território nacional?

R: Dá! Eu estou a viver da música, não faço mais nada. 


10 @ Para breve, então, está previsto o lançamento do vídeoclip do tema “Debaixo da Ponte”. O teu site oficial também já está online. Que outros projectos tens para um futuro próximo?

R: É continuar a fazer a minha cena em concertos por todo o país e dar a conhecer às pessoas a minha música. É isso que eu quero.

28 de novembro de 2011

PAULO BRAGANÇA


Os Fados de “Bragança” pelo mundo

 FACTOS
Nomeado: Paulo Bragança
Origem: Angola
Ofícios: Cantor, actor e estudante
Arte: Fado
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ENTREVISTA

Jornal Nordeste (JN): Como é que sentiste a excepcional recepção do povo brigantino no teu regresso aos palcos após um retiro de seis anos do mundo artístico?
Paulo Bragança (PB): Não sei! Senti-me muito bem, mas muito estranho ao mesmo tempo. Foram dias carregados de emoções, desde que aterrei em Lisboa. Tinha montes de gente à espera no aeroporto, pessoas anónimas a pedirem-me autógrafos. Foi muito bom! Eu não estava à espera disso… Aliás, eu não estava à espera de nada. Depois, foi chegar aqui e ver a minha família que não via há seis anos. Se bem que a minha irmã esteve uma vez comigo na Irlanda com os meus sobrinhos. Mas, de qualquer maneira, é os pais, aquela emoção toda de regressar, o palco…

JN: Na tua opinião, o público soube perceber a importância do momento ao receber-te com uma salva de palmas que parecia não terminar?
PB: Completamente! Aqueles minutos, aquele momento, indescritível… Eu vim a convite do agente Fernando Moreno e do Zé (José Cid) e que eu não esperava tão pouco. Estava na minha casa em Dublin quando recebi uma chamada, que nem atendi porque estava a fazer outra coisa, depois enviaram-me uma mensagem e eu disse “e agora?”. Eu sabia que teria de vir a Portugal em breve, no final de Setembro, para tratar de outras coisas. Nem era para estar a nível público, mas depois pensei: “porque não? Se é agora, vamos embora”. E aceitei o convite. Apreensivo, com algum receio, amedrontado, mas cheio de confiança ao mesmo tempo.
É preciso salientar que não houve ensaios. Apenas, um no dia anterior porque, como sabes, o concerto foi adiado, mas não houve nenhuma preparação… Foi o que foi! E foi um momento único, sobretudo, nesse sentido de não haver nada programado. Nunca tinha tocado com aqueles músicos e aquilo foi muito próprio. Foi um momento que, provavelmente, não voltará a acontecer tão em breve.

Após seis anos de ausência por terras lusas, Paulo Bragança regressa à cidade que o acolheu no coração do nordeste transmontano

JN: Já estás a preparar o teu regresso com um novo trabalho. Tens uma data definida para o seu lançamento? Fala-nos desse projecto?
PB: O próximo disco é o resultado destes seis anos em que eu saí de Portugal, em que absorvi outras culturas, nomeadamente, a Irlandesa, por razões óbvias. Já tenho músicos, tenho escrito imenso. Tenho muitos temas e muita coisa. Acho que irá ser um grande problema seleccioná-las, inclusive. Mas datas não tenho. Será algures por Abril do próximo ano. Talvez em Portugal se passe outra coisa antes, não sei ainda. Estão a pensar fazer uma reedição dos outros trabalhos todos e fazer um best of em condições. Mas ainda não sei e por isso não te posso dar certezas. Mas o regresso à música está mais que garantido.
JN: O álbum será por ti interpretado em que línguas?
PB: O álbum é o resultado de todas as culturas, de todos os fados. Porque o Fado, em sentido lato, não é exclusivamente português. A fórmula fomos nós que a concebemos, digamos assim, mas aquela atitude existe noutros países e isso é que me interessa. Por isso, passa por outras línguas, por outros fados e, obviamente, passará pelo português. Seria uma absurdo se assim não fosse.

JN: Fizeste de um país repleto de história a tua morada actual. Porquê a escolha de uma ilha rodeada pelo Atlântico?
PB: Depois de ter passado por outros países da Europa como a Roménia, França, Inglaterra e Holanda, acabei por ficar na Irlanda. É um sítio que é tão fora de mão. E olha que o império romano nem lá esteve. Isso é de salientar! Mas fui muito bem acolhido e, numa altura, em que a minha vida não estava nada bem, a todos os níveis e mais alguns, senti-me bem. E não enquanto figura pública, mas como um qualquer cidadão comum. Senti-me imediatamente em casa. E absorvi a cultura deles de uma maneira que, hoje em dia, por vezes, o meu sangue fica verde. Isto porque a Irlanda é conhecida como a ilha esmeralda. Tudo é verde, não há castanhos, só milhares de verdes… E quando eu digo que o meu sangue está a ficar verde é porque estou mesmo a amar o povo e a cultura irlandesa. Eu estou a aprender a sua língua, o gaélico, e não sou fluente, pelo menos para já, mas lá chegarei. Na escrita, no entanto, estou muito bem.
As pessoas não sabem isto, mas a palavra gaélico vem da Galiza e o nordeste transmontano é tão celta como eles. E essa ligação das duas culturas celtas porque isto é uma nação celta, também, e as gaitas de foles, os kilts e as próprias saias mirandesas, em tudo isto há ligações. E é essa pesquisa, esse trabalho, que eu estou a fazer.
 
 
Paulo regressou a Bragança para as Festas da Cidade, após convite endereçado por Fernando Moreno, produtor de espectáculos, e José Cid

JN: Em termos culturais, como é que é a Irlanda?
PB: É um país onde se passa o mesmo que em Londres, em Manchester, em Liverpool… É exactamente a mesma coisa! Não é só o que vem de fora, mas também o que está lá dentro. Eles fazem e vendem aquilo muito bem porque são autênticos naquilo que fazem. Não só na parte da música, o folk tradicional irlandês, a Irlanda é um país de escritores, de poetas. É o país de Baco. E tudo isso deslumbrou-me! E depois há aqueles mistérios celtas, aquelas lendas.
Eu vivi num castelo durante um ano e meio. Era normando, tinha 900 anos e pertencia a um amigo meu. Estava no coração do país, mesmo no centro geográfico, atrás do segundo maior lago da Irlanda e estar lá sozinho durante esse tempo, num período de reclusão, consegui aperceber-me de toda a história daquela nação lavada a sangue.
Aquilo é um castelo a sério e eu estive sozinho quase sempre. Consegue ser belo e fantasmagórico ao mesmo tempo, mas há ali tanta, tanta história. Eu dedicava-me só a ler, a escrever ou, então, a olhar para o céu a pensar, a meditar.

JN: Ou seja, fez-te bem esse período de reclusão?
PB: Se fez! Até já tenho saudades, acredita. Porque lidar com o facto de ser uma figura pública, tudo isso tem a sua parte agradável, mas não te podes deixar deslumbrar. Não há muita diferença entre a pessoa e o artista. E eu sou aquilo que sempre fui. Eu costumo dizer, cada vez sei menos do mundo, mas mais de mim. Eu não vejo notícias, não leio jornais, não quero saber. Simplesmente, não me interessa. Porque é tanta tragédia e já basta a minha. E se eu souber mais de mim, melhor de mim vou dar. Por isso, o mundo não me interessa. Interessa-me saber de mim.
A Irlanda, também por ser uma ilha, tem uma identidade muito própria onde não é fácil penetrar. Eles dão-te a deixa, se souberes agarrá-la… Eles deixam, mas tens de ser autêntico também. E talvez por essa sua autenticidade é que eu sempre me senti muito bem lá. Porque eu também fui sempre muito autêntico comigo próprio. E não cheguei lá com truques, também porque nunca os tive. Em Roma, sê romano. E eu fiz, de facto, isso. De modo que este próximo disco vai ser o resultado destes anos de ausência, das novas influências e de outros fados que há no mundo. Mas descobrir o fado dentro da sua própria cultura não é fácil. Obedece a um exaustivo trabalho de pesquisa e disciplina. Uma pessoa tem de se embrenhar nas situações e senti-las. Acima de tudo, o novo disco será a influência destas coisas todas.

“Só vivi em Bragança durante oito anos, mas foi um período muito intenso. Para além disso, carrego a responsabilidade do nome”, PB
JN: Tiveste também uma experiência recente na representação, mais concretamente ao protagonizares a aclamada curta-metragem intitulada “Henry and Sunny”. O que é que significou para ti, enquanto artista?
PB: Eu já tinha participado no filme “Tráfico” com o João Botelho, mas aquilo foi completamente inesperado. Eu trabalhei algum tempo, pouco, pela primeira vez na minha vida, das 9 às 5, para a câmara de Dublin. Eu estava a fazer um trabalho para eles e entrei em casa da Orla e vi logo que aquela era morada de uma artista. Mas não me competia a mim perguntar tal coisa. Passados uns dias, regressei e ela perguntou-me se eu gostava de cinema. Eu respondi, “claro que sim”. E ela retorquiu, “algum dia consideraste em vir a participar num filme?”. E eu disse-lhe que, por acaso, até já tinha participado. E foi então que ela me contou que tinha um filme para fazer e eu parecia-lhe ser a pessoa indicada. Mas ela não fazia a mínima ideia de quem eu era. Aí começou a situação. Depois conheci o realizador e fiquei com o papel principal. Eu não fiz por isso, mas apareceu-me do nada. E essa é que é a história fantástica porque podiam passar 500 anos e não voltar a acontecer-me algo assim.






16 de setembro de 2011

ALÍPIO TOMÉ PINTO

“A PAZ É SEMPRE O MELHOR BEM”

 

FACTOS

Nomeado: Alípio Tomé Pinto (ATP)
Naturalidade: Maçores, Torre de Moncorvo
Data de Nascimento: 14 – 01 – 1936  


INTRO: Carreira militar de apreço notável

Alípio Tomé Pinto foi promovido por distinção ao posto de major, com 30 anos de idade, em Julho de 1966, condecorado com a medalha de Valor Militar com palma e duas medalhas de prata de Serviços Distintos com palma e integrou o comando do 25 de Novembro que repôs a legalidade democrática. Foi, ainda, promovido a oficial general com 45 anos de idade e agraciado com o Grau de Cavaleiro do Império Britânico, Grau de Grande Oficial da Ordem de Mérito da República Federal Alemã e Grã-Cruz da Ordem Militar do Rio Branco do Brasil. Comandou, também, a GNR a nível nacional e, enquanto Chefe do Estado-Maior na Madeira, nos anos 70, Alípio Tomé Pinto teve a trabalhar para si, como Oficial de Relações Públicas, o actual Presidente do Governo Regional, Alberto João Jardim.
Com um currículo interminável, estes são apenas e só alguns fragmentos de uma vida repleta de protagonismos e acontecimentos marcantes de carácter inefável que o ilustre maçorano experienciou, tendo calcorreado meio mundo na célebre diáspora portuguesa. 


ENTREVISTA
  
Jornal Nordeste (JN) – Foi somando feitos raros ao longo da sua impecável carreira militar. Que características o distinguiam dos seus pares que o possam ter levado a granjear tamanhos e incontáveis reconhecimentos?
ATP – Não sou a pessoa mais indicada para dizer das razões de excepção, já que ao longo da nossa carreira vamos sendo apreciados pelas chefias e comportamentos exercidos. Em 1957, iniciei a minha carreira em Mafra, procurando sempre cumprir com entusiasmo e dedicação as missões cometidas. Contudo, sem nunca deixar de manifestar as minhas opiniões aos chefes, quando o julgava necessário. Daí que em leitura atenta dos meus louvores, na maior parte, constarem as palavras “forte personalidade”. Nunca recusei nenhuma missão, mas a verdade é que só somos nós quando conseguíamos o apoio daqueles que comandávamos e a concordância das chefias. Depois trabalho, estudo, bom senso e entusiasmo foram condições indispensáveis. Talvez seja oportuno relembrar a estafada, mas válida frase, em que se diz que “O Homem é ele e as circunstâncias”. E eu posso dizer que me foram favoráveis e sempre os meus militares estiveram disponíveis para alcançarmos os objectivos que o Interesse Nacional impunha.
 
 
JN – Cumpriu missões em Angola e na Guiné. Já com um certo distanciamento sobre a Guerra Colonial, como é que analisa a intervenção portuguesa em solo africano? Tanto sacrifício teria sido mesmo necessário?
ATP – A resposta não pode traduzir-se num simples “sim” ou “não”, mas no desenrolar da vida de um povo com nove séculos de história feita de rasgos, sacrifícios e de desafios. Demos ao mundo novos mundos e isso não se fez por tratado ou convenções. Foi preciso percorrer esse mundo e deixar “a marca” que ainda hoje persiste e é
orgulho de muitos dos que por lá estão ou daqueles que daqui vão lendo e registando essa odisseia de um povo que ganhou identidade humanista e universalista. Primeiro, foi a ambição do Extremo Oriente, depois o Brasil e, finalmente, África, que a todos nos marcou. A questão Imperial, vivida muito em especial a partir da Conferência de Berlim (1885), não foi nada fácil para a política portuguesa (“sempre de calças na mão”), tendo, naquela data, alemães e ingleses como opositores, que privilegiaram o direito da ocupação pelo da conquista, válido até então. Foi difícil, assim, para Portugal, marcar e salvaguardar as fronteiras desses povos, ainda hoje válidas. A 1ª e 2ª Guerra Mundiais alteraram a face do mundo e após esta última, África acordou para as naturais independências.
  
Aos 25 anos de idade e após os acontecimentos de Angola, em 1961, ATP sofreu ferimentos tão graves que o capelão não hesitou em ministrar-lhe o Sacramento da Extrema-Unção.

Os políticos portugueses não souberam acompanhar esta evolução até porque era possível fazer-se em entendimento e não em luta. O atraso negocial não foi benéfico e surgiram as mortandades no norte de Angola, a que havia que responder militarmente para salvaguarda das populações e bens. No meu caso, fui mobilizado e bem. O depois poderia e deveria ter tomado outros rumos, muito em especial após a morte de Salazar.
Entretanto e com grande intensidade, provocou-se o desenvolvimento sócio-económico sem paralelo na nossa história. Atrevo-me a dizer que, caso não se tivesse processado esse desenvolvimento em muitos territórios dificilmente se falaria hoje o português e a Comunidade dos Países de Língua Portuguesa (CPLP) teria sido uma impossibilidade. Definitivamente, as mortes, os retornados e as guerras civis poderiam ter sido minoradas. Depois, surgiu o 25 de Abril de 74 com todas as suas consequências positivas e negativas. Respondo, então, que não há que ter complexos e que houve erros de muita gente e interesses de outros Povos que não eram os nossos, nem os de África.
Felizmente, encontrou-se a paz. Uma que espero duradoura para todos nós, sendo certo que nada justifica a morte de seres humanos, a não ser a ambição e a ignorância de muitos dos seus intervenientes.


JN – Consta-se que foi um dos intervenientes em dois momentos chave que levaram à consolidação da democracia em Portugal. Em que consistiu exactamente o seu papel?
 ATP – A questão do 25 de Abril de 74 e do 25 de Novembro de 75 é uma delas e já ocupou imensos livros. Eu recomendo a leitura do “25 de Novembro” de Freire Antunes, por me parecer desenhar com simplicidade e toda a verdade o quadro político militar que, então, se viveu. As velhas gerações recordam bem a “confusão” surgida no pós-25 de Abril de 74 que “obrigaria “ um grupo de oficiais a constituírem-se em grupo para planear e levar a bom termo a reposição da Democracia prometida, mas que estava em risco de não ser alcançada.
O meu papel, como o de alguns outros, foi o de participar no planeamento e execução das acções militares a levar a efeito, caso a situação se deteriorasse como veio a acontecer, após os acontecimentos do 11 de Março de 1975. Um dia que pôs em causa a segurança de pessoas e bens e colocou em risco a evolução democrática, numa tentativa de dificultar o processo eleitoral. A partir do Regimento de Comandos, um pequeno grupo onde eu me encontrava, eram difundidas as ordens operacionais após sancionamento pela Presidência da República. Foi imposto o “recolher obrigatório” durante três dias e após movimentações militares e civis que iam além de Lisboa e de alguns confrontos militares na região da capital, criaram-se as condições para que os objectivos nacionais definidos no Dia 25 de Abril viessem a ser cumpridos, inclusive o processo eleitoral. Mas não foi fácil! Posso acrescentar que a intervenção abrangeu actividades de instituições e partidos da área democrática.
 

 
Também na Guiné, na região de Binta, em 1964, ATP foi, de novo, ferido gravemente em combate.

JN – A 28 de Agosto de 1982 é escolhido para comandar a Guarda Nacional Republicana. Curiosamente, um ano antes do FMI entrar em Portugal pela segunda vez. Acha que a crise económica e os cortes a que a GNR tem sido sucessivamente sujeita pelos vários Governos, mais a reentrada do FMI, comprometem, de alguma forma, a sua operacionalidade?
ATP – Assumi o Comando da GNR em Agosto, tendo sido indigitado em Janeiro desse mesmo ano. Depois de ter feito o Comando de Santa Margarida não esperava tal convite e, inicialmente, coloquei algumas questões que o poder político e militar viriam a aceitar. Deram-me tempo para estudar outras forças similares da Europa e a história da própria GNR. A situação do país era tipo pós-revolução, estando em curso a Reforma Agrária no Alentejo, o desenvolvimento das Forças Populares 25 de Abril que provocariam alguns assassinatos e a própria GNR não tinha meios para se adaptar à nova situação. Foram quase seis anos de uma dura mas honrosa tarefa, onde tive o apoio total dos sucessivos governos e a dedicação dos Homens da Guarda que viviam uma situação de carência e a requererem uma reorganização profunda e o estabelecimento de Estatutos que não possuíam.
A presença do FMI nada tinha a ver, nem tem, com a situação na GNR. Traduz, antes, uma deficiente situação económica que poderá ter repercussões sociais que podem perturbar a ordem pública e como tal a GNR e outras forças poderão ser chamadas a intervir. Algo que é sempre desfavorável ao equilíbrio social que todos pretendemos alcançar. A Paz é sempre o melhor bem. A falta de meios financeiros ou outros terá sempre repercussão no seio destas instituições, afectando o seu moral e espírito de sacrifício perante as exigências da missão.
 
 
JN – Qual foi a campanha militar mais difícil em que participou?
ATP – Não dá para escolher, já que todas elas são difíceis. Em especial, quando temos a nosso cargo o comando das tropas. Por cada um dos militares, sentimo-nos responsáveis, quer nas questões logísticas, quer nas questões psíquicas e de combate. São sempre noites e dias longos. Em Angola e na Guiné vivi momentos preocupantes. Mais na Guiné, pois o adversário actuava num terreno próximo dos locais de refúgio além-fronteiras e com maior apoio internacional.
Do negativo, há que fazer positivo. O apoio prestado às populações, por exemplo, construindo um aldeamento, uma escola, um Posto de Socorro e outras condições que tornaram a região pacifica e com condições de vida própria a que não faltaram as sementeiras de arroz e amendoim, aumentava a nossa capacidade de resistência psíquica e de auto-estima. Foi esta política estratégica que nos levou a resistir e durar 13 anos em três teatros de operações a milhares de quilómetros de Lisboa.
Da guerra, tentávamos fazer a PAZ e, em Angola, quase o conseguimos, não fosse o falhanço da política.



JN – Da sua imaculada folha de serviços constam treze louvores ao nível de Ministro ou Oficial General, quinze condecorações nacionais e dez condecorações estrangeiras. Que é que significaram para si?
ATP – Condecorações e louvores traduzem sempre uma apreciação positiva e de incentivo. É usual dizer-se que não se pedem, mas não se recusam. Assim aconteceu comigo e acontece com a maioria. Quantificar ou valorar este apreço seria atitude menos digna, pelo que todas me merecem igual respeito por quem as concede e pelo que elas, a cada momento, representam. Recebidas por um, mas que, por vezes, são obra de muitos. Há que ter essa noção, sem falsas modéstias.


“Nas saudosas conversas com o meu Pai, ele me dizia: “faz sempre o Bem e dos outros antes inveja que Piedade.””
 
 
JN – Percorreu várias partes do mundo. De todos os países que visitou, que cultura considera como sendo a mais fascinante?
ATP – Uma curta questão que exigiria uma longa resposta, entrosada com a presença dos portugueses no mundo. Um número na ordem dos cinco milhões. Todos os locais nos deixam especiais recordações quando gostamos de conhecer o mundo. É difícil tal escolha, mas do modo como está feita a pergunta responderia Itália. Por razões dos Exercícios NATO e da Missão da Brigada Portuguesa tive que me deslocar ali várias vezes e calcorrear algum terreno. De Milão a Veneza, passando por Verona e Sirmioni (Lago dela Guardia), a paisagem é deslumbrante e mais bela se torna quando subimos e percorremos a região dos Alpes. As populações são de um nível cultural elevado e de excepcional convivência. Verona não são apenas os amores de Romeu e Julieta, mas tem um excepcional teatro romano ao ar livre funcionando durante o Verão com alguns dos melhores espectáculos europeus.
A meio caminho de Roma, temos Florença com o seu esplendor museológico que vale a pena visitar por dois ou três dias. Roma é o passado longínquo, um berço civilizacional, também, pleno de modernidade e bonitas mulheres que se passeiam pela via Veneto ao final da tarde. Mas há que visitar Nápoles e a alegria das suas gentes numa terrível confusão de transportes e de gritos. Próximo, temos a velha imagens da antiga Roma nas pequenas cidades de Herculano e Pompeia. Para os turistas, temos as belezas da costa malfitana e as famosas ilhas de ÍIsquia e Capri. 
Mas, para aqueles que querem recordar o Portugal de outros tempos, têm que procurar S. Salvador com as suas Igrejas carregadas de ouro e as pequenas cidades do interior do Estado de Minas Gerais. As suas ruas, telhados e janelas são a cópia do que se fazia nas nossas cidades do interior noutros tempos.
Já o verde de S. Tomé é único, como único é o pôr-do-sol visto na Tundavala, em Angola. Sentado numa pedra e em silêncio, é uma visão deslumbrante e um sentimento único.
Fascínio há em todo o mundo, desde que saibamos ver, observar e conversar. A Comunidade dos Países de Língua Portuguesa espalhada pelos quatro Continentes tem um pouco de tudo…. E de fascínio, sobretudo.
 
 
JN – Como é que os seus familiares, amigos e conterrâneos maçoranos viram a ascensão meteórica de um filho da terra a um dos mais prestigiados postos militares portugueses da sua geração?
ATP – Para não roubar mais tempo ao leitor e, sabendo eu, que o espaço da imprensa é sempre reduzido, limito-me a narrar duas situações por mim vividas que nos levam a ser daquelas terras e daquelas gentes para todo o sempre. Depois do meu ferimento em Angola, em 1961, ainda muito combalido, fui de visita à minha aldeia. Era Domingo e a igreja estava cheia. À saída, no adro, todo o povo se reuniu e pediram a minha atenção. Discursou o Sr. Albano Mendes como o mais velho e importante da aldeia, depois o ti Alípio do “soto” usando palavras buriladas pela frequência do Seminário, depois falou a Maria do Céu, minha colega de Escola Primária. Eu agradeci. A emoção, amizade e orgulho daqueles conterrâneos ficaram bem expressos no que me disseram e no acompanhamento que me fizeram até casa de meus pais.
Bem mais tarde, já Tenente General e, após ter feito o comando da GNR, o presidente da Câmara Municipal de Moncorvo, Aires Ferreira, desencadeou uma cerimónia de homenagem, onde apareceu gente de todas as aldeias vizinhas à minha, pessoas de todas as idades, mulheres de xaile e lenço do tempo de minha mãe que me beijavam como se mais um filho fosse. De Lisboa e Porto compareceram amigos, os meus ex-militares estavam presentes com os Guiões das Companhias e o Presidente da República se fez representar.

Forças Armadas Portugueses no "Royal Tournament" com ATP e a Rainha Elizabeth II


 Uma questão de fé

“Hoje, preocupa-me a actual situação de perda de valores e falência das elites. Lamento a falta de visão e o empobrecimento nas regiões fronteiriças, do esquecimento do mar, que é nossa Identidade; e só, tardiamente, se cuidar da vantagem de uma mais forte determinação no âmbito da CPLP, sem nunca deixarmos de ser os europeus que sempre fomos. Há que fazer renascer a esperança no reencontro com os outros e com nós mesmos e acreditar. Eu acredito!”, ATP
Alípio Tomé Pinto no "topo do mundo", representando a cultura transmontana ao defender a identidade nacional

15 de setembro de 2011

DUAS DÉCADAS DE PALCO

Sempre no activo desde a sua formação, em 1990, Stone Age é a banda mais antiga da cidade de Bragança


FACTOS

Banda: Stone Age
Procedência: Bragança
Formação: 1990
Facebook: Stone Age Bragança
Entrevistado: Marco Teixeira
Contacto/espectáculos: 934252833


ENTREVISTA

Jornal Nordeste: Como é que surgiu a ideia de vos juntardes? A formação inicial…
Marco Teixeira: Éramos um grupo de amigos que morava no mesmo bairro. Um tinha guitarra e depois eu decidi trabalhar no Verão para poder comprar uma bateria. A partir daí, juntámo-nos. Era uma formação diferente… Era o Rui Costa, o António Prada, o Abel Leite e eu, com 14 anos.

JN: Fala-nos do vosso reportório?
MT: O nosso reportório, actualmente, é constituído por 16, 17 temas. É um rock bastante alternativo, quase a dar ao punk. Conhecido, também, por Surfer Rock. Aquele rock dos anos 60, 70, muito eléctrico e ainda com mais atitude. São só originais! Temos duas músicas em português e o resto é em inglês.

JN: Quais foram ou quais são os vossos maiores êxitos?
MT: Como foram 20 anos, houve várias fases de êxitos. Por exemplo, quando a banda começou, o Abel Leite (baixista) tinha criado uns originais pesados com letras muito fortes. Foram os casos de “Chuis Cabeçudos”, um tema de contestação contra a forma repressiva da polícia actuar e “Tem cuidado com o pó”, que era contra as drogas. Na altura, essas músicas tiveram muita fama. Depois, em 98, quando eu comecei a cantar e o meu irmão passou a tocar baixo, fiz a “Sozinho, uma música que depois teve muita repercussão e que chegou mesmo a passar nas rádios da cidade.   

JN: Ainda ides por esses êxitos ao fundo do baú ou cingis-vos aos temas criados já pela actual formação?
MT: Como esta formação tem cerca de três, quatro anos, optámos por tocar só temas recentes e dentro desta linha alternativa do punk rock que estamos a criar. São concertos para uma hora e meia, sensivelmente. Claro que podemos prolongar a sua duração, pois temos muitas mais músicas que podemos encaixar no reportório como baladas e músicas com piano. E já fica um concerto diferente.

JN: Neste momento, fazes ideia de quantos originais tendes?
MT: Eu faço músicas desde 1990… O meu disco rígido deve ter cerca de 700. Com princípio, meio e fim, isto é, originais completamente arranjados, talvez uns 50. No reportório só estão 17, mas temos músicas para dar e vender.
  
JN: Sendo que é diferente para cada banda, como é que funciona o vosso processo de criação?
MT: O processo de criação começa por mim, em casa sozinho. Com os meus materiais tento fazer uma maqueta que, depois, levo ao grupo numa música já pré-estruturada. Coloco baixo, bateria e todos os instrumentos e, depois, o grupo ouve e tenta repercutir aquela que é a minha ideia, sendo que, nos ensaios, muitas vezes são sugeridas alterações ou introduzidos novos elementos. Ou seja, levo a música pré-formatada, mas depois cada elemento intervém na criação com ideias próprias, trabalhando sempre o tema enquanto grupo.

Stone Age protagonizou 3 actuações em 5 dias. A 9, nas Verbenas, a 11, em Miranda e a 14 no Klaustrus Bar, de regresso a Bragança

JN: De onde retirais a vossa inspiração? Ou melhor, quem são os vossos músicos ou bandas de referência?
MT: Para mim e para o meu irmão, o baixista, a nossa fonte de inspiração foi sempre o punk rock. Sex Pistols e Exploited, por exemplo, muita música da década de 70 e, claro, música portuguesa como Censurados e Mata Ratos. Essencialmente, música alternativa de combate, de contestação.

JN: Qual é que consideras ter sido o vosso maior concerto?
MT: O nosso maior concerto foi em Espanha, na única vez que representámos Portugal no estrangeiro. Pela primeira vez, actuámos para cerca de três mil pessoas em Cáceres, penso que em 2005, 2006. É um espectáculo que se realiza anualmente numa cidade diferente e que se intitula “Na ruta pela diversidad”. Fizemos a primeira parte de “Seguridad Social”, um grupo espanhol muito conhecido.
 
JN: Como reagiram “nuestros hermanos” ao som de Stone Age?
MT: A reacção foi excelente! Tanto assim que, no final, fizemos dois ou três encores e mesmo a população mais velha teve uma reacção fantástica. Depois do concerto, vieram falar connosco, elogiaram o nosso trabalho, pediram-nos autógrafos, aquelas coisas que nunca nos acontecem em Portugal.
 
JN: O que é que achas que continua a condicionar a arte e, sobretudo, os artistas, neste caso, vós, músicos, em Trás-os-Montes?
MT: O que condiciona mais é a falta de respeito pela ética da arte. Pela estrutura que é a arte em si mesma. E o respeito pelos músicos fica sempre muito aquém daquilo que eles podem vir a dar. Na cidade, há exemplos de pessoas que muito têm feito pela música e pelos músicos em geral. O Paulo Xavier da Junta de Freguesia da Sé é um exemplo, mas é preciso mais. Os artistas precisam de ser mais acarinhados, terem mais apoio por parte do público nos seus espectáculos e serem mais divulgados pelas rádios. Algo que não acontece neste momento, nesta cidade.

JN: O facto da vossa banda ser oriunda de Bragança e estar aqui sedeada, tolheu de alguma forma o seu potencial, bem como o seu próprio sucesso?
MT: Sem dúvida que a situação geográfica condicionou o nosso sucesso, mas não só. A nossa atitude passiva, de não querer dar o próximo passo, também condicionou um bocado as coisas.  

Para Marco (esq. na foto), o cenário musical transmontano evoluiu imenso, quer em quantidade, quer em qualidade
 
JN: Achas que se o vosso ponto de partida tivesse sido outro, digamos, Lisboa ou Porto, os Stone Age poderiam estar num outro patamar?
MT: Muito provavelmente poderíamos já ter gravado um ou dois álbuns e a nossa música estar a passar numa rádio nacional, tipo Antena3. Era o nosso objectivo. Sempre foi! Que a nossa música passasse nalgumas rádios portuguesas importantes.  

JN: Tendes já 21 anos de palco. Como é que justificas ainda não terdes gravado?
MT: Monetariamente, nunca nos foi possível irmos ao estrangeiro gravar, a Inglaterra, que era o nosso sonho. Mas gravámos em 96 um trabalho com 10 temas, cinco em português e cinco em inglês, criados por mim e pelo Abel. Gravámos 300 cassetes por cerca de 100 contos num estúdio de uma editora em Penafiel, que depois distribuímos pela cidade. Apesar de ser um rock muito forte, fomos bem aceites, mas não houve uma continuidade porque a banda acabou por se colapsar precisamente na altura em que estava melhor. Depois, surgiu com outra formação.

JN: Para quando o próximo álbum?
MT: Queremos concretizar um álbum com 12 temas que será gravado num estúdio com condições para um trabalho sério. De preferência, antes do Natal. Esse é o nosso objectivo. Editar dois mil álbuns e colocá-los nas FNAC e nalgumas rádios. Agora, vamos é ter de arranjar apoios financeiros. É o mais importante, mas também o mais difícil. Os concertos são outra forma de financiarmos a gravação do álbum. Conseguíamos fazê-lo em dois fins-de-semana, a gravarmos cinco músicas em cada. Temos de nos mexer!  

Actual formação:
 
Marco Teixeira aka Orelhas – Vocalista \ guitarra solo
Armando Teixeira aka Comando – Baixista
Mateus Pinheiro aka Bruce – Baterista
Carlos Sequeira – Guitarra ritmo


Marco Teixeira - Entrevistado