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25 de maio de 2011

UM EXEMPLO DE VIDA

Incapacitado, mas não incapaz, Joel pedala 10 mil quilómetros pela paz no mundo e pela “causa dos deficientes”

Era uma vez um desportista. Oriundo de uma típica região vinícola, Joel de Bermond vivia entretido no seu pequeno reino, onde se dedicava à agricultura. Já naqueles tempos, aspirava ser um porta-voz da paz aos homens de boa vontade espalhados pelos quatro cantos do mundo. Para concretizar tamanho sonho, organizou um longo périplo, em bicicleta, através da Ásia, para chegar a Pequim. Ele treinou arduamente para esse grande momento, os Jogos Olímpicos de 2008. Mas, uma reviravolta atroz do destino fez com que o sonho fosse interrompido. E pelos piores motivos.
Em pleno treino, enquanto pedalava, foi colhido por um condutor embriagado e deixado para morrer na berma da estrada. Corria o ano de 2006, aquando do trágico acidente que o deixou gravemente ferido e com o crânio desfeito.
Menosprezando todo e qualquer estereótipo, Joel empenhou-se arduamente num corajoso processo de reeducação. Uma habilitação surpreendente que durou mais de 15 meses, em que conseguiu reaprender a usar os joelhos. Perdido para sempre ficou o seu sentido de equilíbrio. Com tremores incontroláveis, o seu lado esquerdo sofre uma semi-paralisia e a mão esquerda inutilizada. O Síndroma de Raynaud também o ataca, um problema vaso-motriz que dá às mãos e aos pés um aspecto frio e pálido.
Sem poder pedalar na sua bicicleta, após aquele ano de esforço intenso, Joel adquiriu uma bicicleta com três rodas ou trike. E deu-se, então, o retomar dos treinos. E com a preparação física crescente, a possibilidade do sonho voltar a ocupar o seu lugar.
Sentindo-se, então, na sua melhor forma, viajou até ao Hemisfério Norte. Na Noruega, foi homenageado pelo governo com uma estátua em sua memória, que Joel inaugurou. Percorreu 14 mil quilómetros, em sete meses, mais concretamente até ao Cabo do Norte, no Círculo Polar Árctico para, depois, regressar a casa.

Bragança fez parte do roteiro deste sexagenário, que só terminará na Coreia do Sul

Neste seu segundo empreendimento, depois do acidente, Joel partiu de Narbonne, uma pequena povoação entre Toulouse e Montpellier, donde é natural, há um mês e meio. Passou por Santiago de Compostela, Chaves e, agora, por Bragança. “Empreendi esta jornada pela Humanidade. Pela paz no mundo e porque sou inválido, pretendo transmitir a todos aqueles que se encontram na mesma situação que é possível”, assegurou o francês, de 63 anos.
De Trás-os-Montes, região que não conhecia, destaca a sua beleza natural com paisagens de cortar a respiração. Mas não lhe agradam as encostas íngremes, que dificultam imenso a sua travessia.
Casado e pai de uma criança, o ciclista dirige-se, actualmente, para a capital, Lisboa, depois, seguem-se os Açores, Canadá, Alasca e Coreia do Sul. Onde dará por terminada a sua longa jornada de 10 mil quilómetros.
Joel de Bermond considera-se a si próprio um “modesto embaixador da paz”. Mas, este antigo alpinista, antes do acidente, havia já percorrido meio mundo. Desde os Himalaias, à Índia, passando por Itália, Croácia, Hungria, Eslovénia e restantes países europeus. Sempre, de bicicleta. A única diferença é que, agora, pedala numa trike. No entanto, a motivação é a mesma. E a força de vontade, cada vez maior. Aos locais que visita, Joel transporta as suas histórias, partilha as suas experiências, conforta todos os deficientes com excelentes motivos para continuarem a lutar e, essencialmente, acreditarem nos seus sonhos. “O meu objectivo é levar uma mensagem de esperança a todos os deficientes do mundo. Em particular, àqueles que sofreram traumas cranianos”, confidencia este símbolo vivo.




 

14 de maio de 2011

À CONQUISTA DO PÓDIO


Kickboxing, Muay Thai e Boxe abrem na capital de distrito pelas mãos do Mestre Luís Durão, um fazedor de campeões

Os desportistas e amantes das artes marciais, nomeadamente, do Kickbixing, Muay Thai e Boxe, têm, agora, em Bragança a oportunidade de levar a sério a sua paixão. Duas vezes por semana, quem assim o desejar, poderá treinar com autênticos campeões, liderados pelo Mestre Luis Durão.
As aulas decorrem segunda e quarta-feira, ao início da noite, no Pavilhão da Escola Superior de Educação do Instituto Politécnico de Bragança (IPB). Depois do sucesso alcançado em Macedo de Cavaleiros, através da escola, criada em Maio de 2006, em simultâneo com a Associação de Desportos de Combate de Macedo de Cavaleiros (ADCMC), o alastrar de tanta “disciplina, dedicação, humildade, lealdade, carácter, auto-controle” era inevitável.
O resultado da mestria de Luís Durão faz nascer entre os seus atletas uma autêntica equipa vencedora, com seis campeões de pura raça transmontana (ver caixa). “Eu fui atleta e combatia de uma forma diferente porque tive uma base distinta. Fiz artes marciais e consegui combinar várias técnicas e usá-las em competição. Resultou comigo e com algumas experiências e alterações, tem dado frutos. Mais dedicação e muito trabalho”, revelou o Mestre de Kickboxing e Muay Thai, naquela que compreende ser a receita para o sucesso. E justifica: ““Quem vê os nossos combates, vê os nossos atletas a combater de uma maneira completamente diferenciada dos outros. É ir a um campeonato e ver todos a jogar da mesma forma e quando entra um atleta nosso chama a atenção e todos querem ver esse combate por ser diferente”. O lutador acaba, desta forma, por adoptar diversas posições e estilos de combate. “Custa-me mais fazer um atleta de competição assim porque sou obrigado a treiná-lo em duas ou três vertentes. Mas quando o faço, é muito difícil sermos vencidos”, reconhece.
Nas palavras do cinturão negro, as expectativas para Bragança são: ““ter o máximo de inscrições, de atletas, poder dar-lhes formação e conseguir alguns para competição”.

Da combinação de diversos estilos, os atletas adoptam uma forma de combate singular e do treino nascem lutadores que, com esforço e dedicação, ganham o título de campeões

Antes da abertura da escola em Bragança, aquilo que acontecia era que os atletas da cidade eram transportados duas vezes por semana a Macedo de Cavaleiros. “Com as aulas a decorrer, também, no IPB, já não será tão cansativo para os meus atletas”, sublinhou Luís Durão. O, também, presidente da direcção da ADCMC, só lamenta a falta de apoios ao desporto que representa na região. Sobretudo, quando se trata de campeões regionais e nacionais que são verdadeiros lutadores. “Para a Grécia, pedi apoio a várias autarquias. Pedimos a Vimioso que apoiou, a câmara de Macedo apoiou novamente e a de Bragança disse-nos que não havia verbas. Então, eu prefiro que os atletas de cá representem Macedo”, destacou Luís Durão, aproveitando para agradecer à autarquia macedense pela sua disponibilidade financeira, pela cedência do espaço e pelo suporte prestado em múltiplas ocasiões, quer à escola, quer à associação presidida por si.
O mérito de tamanho treino e esforço é tanto que, de 25 alunos, só na Escola de MC, seis seguem o destino dos vencedores. Hélder Ferreira e Francisco Carvalho, a 27 de Março, e Carolina Cadavez, dia 10 de Abril, foram os últimos a sagrarem-se campeões.


DREAM TEAM


Franclim Fernandes, 34 anos, Categoria Seniores, menos de 74 Kg – Vice-campeão da Europa 2010, (único português medalhado prata em campeonatos Light internacionais); Francisco Carvalho, 25 anos, Seniores, menos 63 Kg – 1º Título de Campeão Regional de Light Contact 2010; Carolina Cadavez, 18 anos, Juniores, menos 60 kg – Campeã regional, nacional e vencedora da Taça de Portugal (ano de estreia 2010); Tânia Afonso, 19 anos, Seniores, menos de 55 kg – Bicampeã regional, bicampeã nacional e vencedora da Ladys Open (2010); Clicia Queiroz, 25 anos, Seniores, mais 65 kg – Pentacampeã regional, pentacampeã nacional, vencedora Ladys Open e Taça de Portugal (2010); Hélder Ferreira, 29 anos, menos 71 kg – Campeão regional de full-contact.
A 30 de Abril, em Anadia, na Taça de Portugal, Carolina Cadavez venceu em -60kg (juniores) e Clicia Queiroz em +65kg (seniores). Francisco Carvalho obteve um resultado notável traduzido em quatro vitórias que lhe valeram a conquista da categoria de -63kg (seniores).


Mestre Luís Durão (cinto negro), 33 anos
 

“Estou muito agradecido a Macedo porque a autarquia apoia-nos em tudo o que é possível. Nós participamos em várias provas a nível nacional e a verba, logicamente, que não dá para tudo. Mas se não fosse essa verba, nós não faríamos nada. Inclusive, apoiou-nos na compra de uma carrinha”


Francisco Carvalho, 25 anos


“É complicado arranjar palavras para descrever sensações, mas foi fantástico! Não estava à espera de conseguir o título, mas sempre tive essa vontade de ganhar o campeonato. Vi que tinha qualidade para o fazer e, felizmente, consegui, com a ajuda do Mestre e dos meus colegas”


www.adcmc.com / www.fpkmt.com


8 de maio de 2011

"VAI HAVER FOME"

Com 85 anos, feitos a 25 de Abril, Borralho revisita o passado da “nossa” história num retrato do futuro

Ainda criança, de apenas 12 anos, partiu de casa bem a meio de uma noite de Verão. Em Guimarães, deixou o seu pequeno mundo, o único universo que tão bem conhecia. Para trás, ficou a família, a mãe e quatro irmãos. Corria o ano de 1939, quando Manuel da Silva, mais conhecido por Borralho, decidiu rumar a Bragança. Procurava fugir à pobreza que lavrava um país esfaimado, movido pela esperança de arranjar um trabalho que lhe permitisse mudar um presente de dificuldades extremas, que o flanqueavam um pouco por todo o lado. A oportunidade surgiu naquelas conversas de passa palavra, onde foi veiculada a informação de que “homens precisam-se” na região de Bragança para a construção de um troço rodoviário. E assim aconteceu… Borralho fez-se à estrada, descalço. Uma autêntica epopeia de 14 dias, acompanhado só pela fome. Nas tentativas falhadas de dormir ao relento, o luar tratava de colocar predadores de topo em alerta máximo para as suas caçadas nocturnas. E numa época em que os lobos com as suas alcateias, abundavam em número, a coragem era o requisito mínimo para uma criança se aventurar sozinha por caminhos entre florestas e montanhas.
“Eu tinha 12 anos, quando saí de Guimarães para vir trabalhar na estrada de Gimonde – Guadramil. Vim a pé, 14 dias, alguns a chover”, começa por revelar Borralho, um exímio contador da sua história, cujo início remonta há 72 anos. “Na altura, havia muita fome e passavam-se dias, semanas, sem provar um cibo de pão. Ainda chorei muito por aí acima quando fugi à minha mãe”, relembra, algo nostálgico. “Comecei em Gimonde, descalço, na estrada. Foram 27 quilómetros feitos à mão por nós e foi lá que conheci a mulher que tenho hoje”, faz questão de frisar.
Tendo completado, a 25 de Abril, a generosa idade de 85 anos, Borralho traça uma analogia entre aqueles tempos e a actualidade, recordando o 25 de Abril e comentando a presente conjuntura de crise económica e social.

“Alguns sabem quem matou Sá Carneiro, outros podiam descobrir, mas não lhes interessa”

“Uma vez, em Famalicão, o Salazar fez um discurso em que disse: da fome não vos livro, mas da guerra sim. Tinha eu sete anos, ou seis, e calhou estar lá com duas vaquitas para a feira”, recorda, aquela que é uma das suas primeiras memórias. “Escusava era de ser tão poupado! O Salazar morreu, praticamente, sem gastar um tostão. Havia muito dinheiro e ouro! Devia ter dado mais ao povo porque passou-se muita fome, muita fome! Depois de 74, começou a melhorar”, continuou.
Mas foi sol de pouca dura, já que o Fundo Monetário Internacional (FMI) entrou em Portugal logo na década de 80. Um problema que se ficou a dever, de acordo com o entrevistado, aos “incapazes” que se agarraram ao poder. “Deviam ter ido para lá homens com pulso, capazes de tomar as rédeas e dizer: é por aqui que se corta”, defende. Como defende, também, uma importante figura de Estado cujo fim trágico chocou o país. Ainda sem uma explicação plausível e em circunstâncias nunca completamente esclarecidas, o avião que transportava Francisco Sá Carneiro caiu sobre Camarate a 4 de Dezembro de 1980. “Essa morte foi muito mal contada e não se passou conforme correu por aí. Isto tem que se dizer! Agora, que houve aí alguma coisa, isso houve”, declara o octogenário. “Não sei se foi furo nos pneus, se foi furo no ar ou no chão, o que falta é adivinhar quem foi”, ironiza.

Senhor de uma grande sabedoria popular, Borralho avisa: “Vai haver fome, meu amigo. Não tenha dúvidas”

“Passado tanto tempo, como é que se justifica ainda não se ter descoberto ao certo quem foi ou porquê. Quem fez o mal, está dentro do sistema e, depois, encobrem-se uns aos outros”, explica. Quanto a Francisco Sá Carneiro, é tido, pelo entrevistado, em grande conta. “Era o homem capaz de pegar em Portugal. Devia-se era ter assassinado quem pensou nisso. Eu gostava muito dele e tenho a ideia de que se não o tivessem matado, hoje, talvez estivéssemos bem melhor”, expressa, inquieto, este pai de cinco filhos.
Manuel da Silva, não se preocupando já consigo, pela idade que carrega aos ombros, analisa, em desassossego, o futuro dos mais novos, nomeadamente, dos seus netos. “Agora, quem é que vai pagar esta crise? Há fome na mesma e quem é que vai pagar? Como sempre, são os mais pequenos. Nas aldeias ainda não se nota muito, mas para o Minho há fome, assim como nas grandes cidades e, em Bragança, começa-se a notar”, refere. “Mas isto vai ficar muito pior, antes de começar a melhorar, se melhorar. Vai haver fome, meu amigo! E mais dificuldades! Não tenha dúvida nenhuma”, sublinha Borralho, no alto do seu bem artilhado senso comum.
Apesar de tudo, dá graças pela liberdade alcançada no célebre 74: “Concordo que o 25 de Abril tenha sido bom, pois estávamos a passar por muitas dificuldades! Soubemos da Revolução dos Cravos na mina e a maior parte dos trabalhadores cantava e dançava”, narra, recordando com saudade os 34 anos em que esteve empregado na Mina da Ribeira.


Uma infância “terrível”, esquecida pelo acto de arriscar

Cercado por uma infância miserável, à fome e à pobreza somava-se a ausência paternal. Uma figura de quem o entrevistado não tem memória, pois abandonou a família, em tenra idade, com destino à América do Sul. “Estava para a Argentina e morreu lá. Éramos quatro irmãos, nascidos de seguida, um em cada ano, mas eu não o conheci. Era novo, eu tinha três ou quatro anos, nem me lembra dele”, conta Borralho. “Eu passei muita mágoa”, assevera.
O futuro apresenta-se-lhe incerto, mantendo-se à margem de grandes expectativas. “Eu estou aqui à espera do meu Comandante, que me leve. E a minha mulher, agora, coitadita, está no hospital. Está muito mal!”, confessa, visivelmente emocionado. “Eu não sei quem irá adiante, se eu ou ela, mas nós vamo-nos levar pouco um ao outro”, profetiza, assumindo uma estima indescritível pela mulher com quem partilhou o amor de uma vida. “O que será dela se eu partir?”, antecipa. Uma situação que o comove na tristeza, mais pela incerteza do bem-estar da sua companheira de sempre.



7 de maio de 2011

O SEMEAR DA CULTURA DE UM POVO

A diversão é a base de sustentabilidade dos Trasga, um grupo de música tradicional das terras de Miranda

Divulgar e potencializar a cultura mirandesa, através da música, são, somente, algumas das premissas dos Trasga. Criado em 2006, este grupo de música tradicional é movido pela diversão proveniente das suas actuações ao vivo e de um convívio saudável entre os seus elementos.
Considerado um dos melhores grupos de música tradicional, originário do concelho de Miranda do Douro, os Trasga são constituídos por cinco músicos: Célio Pires, Sérgio Martins, Tiago Martins, Domingos João e António Garcia.
Sensibilizado para o projecto do Museu de Carção, o grupo quis contribuir para a angariação de fundos oferecendo um concerto de música tradicional à população. A receita de bilheteira reverteu, assim, para “a causa” que visa a construção do museu. O Salão Nobre da Casa do Povo foi demasiado pequeno para receber tanta gente. Com uma sala esgotada, a audiência permaneceu efusivamente atenta durante os 14 temas interpretados em cerca de uma hora e meia de concerto, naquela que foi a estreia do grupo em Carção. Momentos antes da actuação ter início, o Jornal Nordeste esteve à conversa com os músicos, que explicaram o surgimento da banda, o seu percurso, o mais recente trabalho e os objectivos para o futuro.
“Esta ideia de formar um grupo era já um bocado antiga. Mas nunca tivemos oportunidade de a concretizar devido à nossa condição profissional. Em 2006, decidimos transformar os Gaiteiros da Raia, um grupo de rua que já existia, num grupo de palco. Depois, transformámos alguns temas que já tínhamos e adaptámo-los para outros instrumentos e para vozes”, revela Célio Pires, o responsável pela composição dos temas. “Eu trato da composição, mas, depois, há sempre os toques de uns e outros para colocarmos a música a funcionar por todos. Temos cerca de oito originais, embora, tenhamos mais construídos”, esclarece o músico.
Dessa união de esforços, desenvolveram não só músicas tradicionais com alguns arranjos que lhe dão um toque de singularidade, como também músicas originais com novas sonoridades. E são instrumentos como a gaita-de-foles, a sanfona, a flauta pastoril, a pandeireta, a castanhola, o bombo, o acordeão e o bandolim que ajudam a satisfazer as delícias de um público-alvo cada vez mais numeroso.

“Os concertos são um misto de músicas tradicionais e músicas originais”

“Trasga ao vivo” é o último trabalho do vasto espólio musical desta banda do Planalto. Um álbum gravado na Páscoa de 2008 e que conta com 12 temas. “Foi um disco que nós gravámos ao vivo em Sendim, mais, até, para os amigos. Digamos que estamos a iniciar”, afirma.
Temas como Repasseado, Passacalhes, La Çarandilheira, La Lhoba Parda, Hourizontes, entre muitos outros, são já bem conhecidos entre os seguidores da música tradicional mirandesa. Contudo, o álbum não teve lançamento no mercado discográfico e Célio explica o porquê: “basicamente, o nosso objectivo era experimentar e fazer um disco para oferecer aos amigos. Nada mais do que isso”. Mas existe a ambição de gravarem um disco. “Isso ficará para um pouco mais tarde, quando houver mais condições, mas esse é o nosso objectivo fundamental”, desvenda.
As actuações têm sido, basicamente, em Portugal, sobretudo, no norte do país. A Europa será o próximo patamar, como o próprio porta-voz da banda revela, em tom de anseio. Mas o que realmente importa e faz mover em crescendo este grupo, é todo um divertimento inerente ao funcionamento dos Trasga, enquanto motor de uma cultura e de uma língua que não se querem esquecidas. “Nós fazemos isto, sobretudo, pela diversão. Tudo aquilo que venha por acréscimo, óptimo”, conclui Célio Pires.

O Salão Nobre da Casa do Povo de Carção lotou para bem acolher o grupo de Miranda do Douro 


O significado do nome

“Trasga” significa uma argola de madeira, na qual é amarrada uma corda de cabedal (sobeio) que, depois, se liga ao jugo dos animais e, por sua vez, ao timão do arado. Da mesma forma que a trasga serve de elo de ligação entre os animais e o arado com o fim de lavrar a terra, também o músico é o elo de ligação entre um instrumento musical e a própria música. Por outro lado, sendo uma argola, significa a união de todos os elementos do grupo, oriundos de várias localidades espalhadas por todo o concelho de Miranda do Douro.

Célio Pires, o responsável pela composição dos temas

Gravar um disco, usando e abusando do divertimento como elo de ligação entre os seus elementos, é, apenas, um meio para os Trasga atingirem o fim derradeiro. A imortalidade da cultura e identidade mirandesas através da música tradicional, inspirada pela actualidade



28 de abril de 2011

O "VÍCIO" DO FOGO

Quando se testam os limites de previsibilidade de um instrumento tão poderoso que pode escapar ao controlo humano

Várias são as parcelas de território queimadas na época que antecede um Verão famoso pelos seus incêndios. Uma forma de prevenir males maiores, no pico de um calor intenso. Legais ou ilegais, as queimadas acontecem um pouco por todo o distrito. Naquelas permitidas por lei, são chamados a intervir os técnicos de fogo controlado. A perigosidade é tanta que, regra geral, estas acções são devidamente acompanhadas pelo Grupo de Intervenção, Protecção e Socorro, Bombeiros e Sapadores. De acordo com os profissionais da área, esta é uma profissão de risco que pode chegar mesmo a transformar-se num vício. Na única queimada realizada este ano, na Aveleda, Bragança, Edgar Bragada supervisionava o Plano de Fogo Controlado, enquanto confirmava aquilo que parece ser um facto bem conhecido entre aqueles que manipulam o fogo para atingir um fim específico. “Não sei porquê, mas uma pessoa começa a andar com o pinga-lume e apanha o vício de uma coisa destas. É tipo outro vício qualquer como o tabaco, o álcool ou a droga”, assegurou o técnico de fogo controlado.


O Pinga-lume é um instrumento cuja mistura de gasóleo e gasolina permite dar início a um fogo. “Isto é um material explosivo. Portanto, tem que ser usado com muito cuidado e tem que se saber aquilo que se está a fazer”, lembrou Edgar.
Outro Técnico de Fogo Controlado é António Borges, que gosta, realmente, do que faz e, também, sente o “bichinho”. Uma circunstância bastante comum, nesta profissão. “De facto, o fogo continua a ser um mistério. Eu posso ter 50 anos de experiência de fogo controlado e vou continuar a achá-lo misterioso”, garantiu o técnico, que tem vindo a apostar na formação, inclusive deslocando-se aos Pirenéus franceses e à Córsega. “Nós temos uma formação mínima para tentarmos prever o comportamento do fogo. Mas um fogo nunca é igual a outro. Pode haver algum pormenor, quer seja o combustível, quer seja outra coisa qualquer, que não conseguimos controlar naquela altura, que nos desafia”, explicou. “O fogo é um instrumento fácil, por isso é que, às vezes, leva a exageros. É como lidarmos com um ser vivo. Daí o tal bichinho, o tal vício”, justificou o técnico, certificado pela Autoridade Florestal Nacional em 2006.


António Borges trabalha para uma Associação de Produtores Florestais, a Arborea, e diz ter conhecimento, apenas, da existência de dois ou três técnicos de fogo controlado no distrito de Bragança. De tal forma há poucos que procede, mesmo, ao ateamento de fogos noutras zonas do país. “Trata-se de utilizar o fogo fora da área dos períodos críticos, principalmente, de Inverno. E vamos queimar áreas com vários objectivos”, referiu o técnico. Na Aveleda, por exemplo, fez-se uma queimada em defesa da floresta contra incêndios. Ou seja, o objectivo foi o de reduzir ou interromper o combustível, criando assim uma faixa ou corte para compartimentação do terreno e que permitirá aos Bombeiros, de futuro, intervirem naquela zona, caso seja necessário. “O fogo controlado é apenas uma das ferramentas. Uma das opções num caso concreto. Mas há várias! Nós temos é de ponderar as vantagens e o risco potencial envolvido”, sublinhou António Borges.

António Borges, Técnico de Fogo Controlado

20 de novembro de 2010

CALOIRAS NUMA CIDADE "ESTRANHA"


Por entre as brumas da tradição de uma tarde de Novembro, as ruas que dão acesso ao Instituto Politécnico de Bragança (IPB) são inundadas por centenas de pessoas. Cafés repletos de fumo, um barulho ensurdecedor, cânticos dos vários cursos ecoam por entre os muros de uma cidade sitiada por novos alunos. É a Semana de Recepção ao Caloiro 2010.

É costume dizer-se que o filho pródigo regressa a casa. Mas, para regressar, tem de partir primeiro e neste último caso, pode muito bem vir parar ao IPB. Quando isso acontece, a dor patente na quebra dos laços familiares de proximidade é evidente. “O que mais me custa é separar-me dos meus pais. Habituada à comidinha caseira, sempre a horas na mesa, roupa lavada, casa arrumada… Agora, sem os meus pais, tenho de me desenrascar sozinha”, confessa Patrícia, cujo olhar de caloira, ainda, a denuncia. “Comprei um despertador e, mesmo assim, não é fácil acordar de manhã cedo”, revela.
Depois de uma “má experiência”, no primeiro apartamento, Patrícia procura, entre folhetos e balcões de café, um porto tranquilo onde possa encontrar aquele sossego típico da casa dos pais. “Está a ser difícil! Estive perto de um mês num apartamento com mais quatro pessoas, mas era uma confusão… Muitas das noites, nem conseguia dormir. Para quem tem de acordar às 8 horas, é complicado. Agora, já fiz uns telefonemas e vou ver se encontro uma casa ou um quarto mais calmo”, desabafa.
Percorro, agora, os corredores solitários do IPB. Passam 10 minutos das 16h. Alguns professores esperam pelos alunos, mas estes parecem não comparecer. As salas estão quase vazias, o silêncio só é abafado pelo ruído que vem de fora, dos motores em rebuliço, das conversas alheias, das chamadas praxes “integradoras”.


Ao cruzar de uma esquina, encontro Liliana, outra caloira, descontraída quanto baste. “Já estou em Bragança há cerca de um mês. A habituação foi relativamente fácil, já tenho imensos amigos e as pessoas aqui são muito simpáticas. Tenho saído muito! Aulas, nem por isso”, confidencia. No que diz respeito à família, exterioriza: “Para mim, foi mesmo o mais difícil! Como sou de longe, passo muitos fins-de-semana aqui em cima, já que a viagem é longa e dispendiosa. Mas falo com os meus pais, praticamente, todos os dias para minorar a saudade e a distância que nos separa”.
Patrícia e Liliana fazem, agora, parte dos cerca de 8 mil estudantes do Politécnico. A primeira evidencia-se receosa quanto ao seu futuro próximo, enquanto que, Liliana demonstra, no seu semblante, mais confiança e outro entusiasmo. Talvez por desfrutar de certas liberdades pré-adquiridas em tenra idade, talvez pela intimidade de já tratar por Tu a cidade. “No Algarve, eu e as minhas amigas saímos constantemente. Os meus pais sempre foram pessoas muito liberais, por isso, esta vida de estudante estranha numa cidade estranha não me assusta. Pelo contrário, estou ansiosa pelos anos que aí hão-de vir”.

Recepção de Boas-Vindas aos caloiros do IPB no auditório ao ar livre

12 de junho de 2010

OS PEREGRINOS

Durante 11 dias, dois brigantinos empreenderam uma viagem de 300 quilómetros num Caminho de e para S. Tiago de Compostela

De albergue em albergue, Amílcar Moreira e António David calcorrearam perto de 300 quilómetros numa viagem que durou 11 dias. De Bragança partiram, a 9 de Abril, às 9 horas, o destino: S. Tiago de Compostela. Sempre próximos ou lado a lado, cada um com o seu ritmo próprio, e sem grandes pressas, caminhavam uma distância diária a rondar, em média, os 30 quilómetros distribuídos por 9 ou 10 horas, e repartidos em pequenas pausas. Os albergues servem o seu nobre propósito, providenciando guarida aos nossos peregrinos após um extenuante dia de caminho. Excepção feita à primeira paragem, Moimenta. Ai foi um casal amigo a recebê-los de braços abertos. Numa hospitalidade tipicamente transmontana, um jantar caseiro retemperou forças, após um desgaste de 37 quilómetros. A cama complementou o descanso no passo mais lógico seguinte. A 10 de Abril, o dia amanheceu cedo. Duche, pequeno-almoço e, antes das 9 horas, as solas já conheciam o calor do destino ao trespassarem a fronteira em direcção a A Gudiño.


Com séculos de existência, neste “Caminho da Prata” dos nossos antepassados, bem como noutros que acedem a S. Tiago, há setas amarelas, “conchas” e indicações “por medida” que garantem a fiabilidade do percurso. Assim, de várias formas se evita que, mesmo os mais distraídos, ou aqueles desprovidos de um qualquer sentido de orientação mais preciso, percam o norte ou tropecem nalgum contratempo indesejado. A partir de A Gudiño, é providenciada a logística que serve de base de apoio a todos aqueles cuja meta é a catedral na cidade santa espanhola. Os albergues são parte integrante dos 9 caminhos (apenas os Caminhos Inglês, Francês e Português chegam a S. Tiago, os outros vão-se juntando a estes três durante o percurso), e para que nada falte aos peregrinos, em todos eles, cobra-se a módica quantia de 5 euros.
“Podes dormir, tomar banho e cozinhar, dão-te um lençol e uma travesseira e só pagas 5 euros. Parecem hotéis de cinco estrelas! Mas, apenas, podemos ficar uma noite hospedados, só se adoeceres ou tiveres magoado é que poderás ficar mais tempo”, expressa Amílcar, mais conhecido, entre os amigos, por Mica, e cujas dores nos joelhos acrescentaram um grau de dificuldade à viagem dos seus 54 anos.

“Podes dormir, tomar banho e cozinhar, dão-te um lençol e uma travesseira e só pagas 5 euros”

Para António, a parte mais difícil do trajecto foi depois de Ourense, onde chegaram no dia 17 de Abril, uma subida de 2,5 quilómetros com 19 por cento de inclinação. “Eu fui uma vez a S. Tiago, em 1999, mas parti de Ourense e fiz outro caminho que há, sem ser a subida. Ainda, foram cerca de 106 quilómetros”, testemunha nos seus 51 anos.
Quanto ao cansaço, Mica assegura a sua irrealidade. “Nunca te cansas porque não vai ninguém a picar-te. Podes descansar o tempo que quiseres. Eu e o António tínhamos bolhas nos pés e púnhamos uns pensos de silicone e umas gazes e nem as sentíamos”, afirma.
Apesar das maleitas físicas, o bom tempo fez questão de auxiliar o par de andantes, enquanto que, em Bragança, um dilúvio parecia abater-se sobre a cidade. No Caminho da Prata, o sol fez questão de ser uma graça dourada constante.
Nesta que foi a segunda viagem de António, e a primeira de Amílcar, os peregrinos contaram com a preciosa ajuda de Luís Oliveira, que foi ter com eles a Ourense, tendo-os acompanhado no último terço da viagem. Para além do óbvio apoio moral, por se tratar de alguém que se deslocou propositadamente para ir ao encontro dos seus dois amigos, também se tratou de um auxiliar físico, pois como estava de carro, pôde levar consigo todo e qualquer peso extra dos caminhantes, sobretudo, as mochilas, permitindo, assim, o resto de uma viagem mais folgada e descontraída.

O Caminho é a viagem de um peregrino. São aos milhares que todos os anos percorrem trilhos inauditos na procura incessante de um destino

Nesta mescla de crença e descoberta, existe uma credencial, previamente adquirida, que comprova as pessoas como romeiros de S. Tiago. Renovando a tradição das cartas de apresentação ou salvo-conduto dos peregrinos antigos, este é um documento básico, indispensável e exclusivo para quem se aventure nos Caminhos de Santiago, seja a pé, de bicicleta ou a cavalo.
Carimbado na rota, à passagem de cada albergue, bar ou pensão, a credencial dá direito à “Compostelana”, uma espécie de diploma, entregue já na Catedral de S. Tiago de Compostela a quem tiver percorrido uma distância superior a 100 quilómetros. É como a certificação da viagem daquele que “ousa” enfrentar os momentos de introspecção dignos de uma peregrinação. Pese embora, a companhia.
“Na catedral, mostramos o passaporte e, através dos carimbos, um assessor do bispo verifica o nosso trajecto. Só dão a “compostelana” a quem tiver feito, no mínimo, 100 quilómetros”, revela Mica, que conta, orgulhoso, os seus 17 carimbos.
Nesta viagem, a parte mais interessante, para este viajante, é o trajecto que vai desde A Gudiño até Laza. Mas, em termos de experiência, ele sublinha diversos factores: “é a natureza, o dares por ti a falar sozinho, o sacrifício e as dores, conseguires superá-las e continuares”. Para António, não há partes mais ou menos interessantes. “O mais importante é mesmo o caminho em si”, defende, reconhecendo a tristeza de quando se termina a viagem, se chega ao fim e completa o círculo. “Por um lado, há a festa de chegares e teres conseguido concluir com sucesso o teu objectivo, mas, por outro, há a tristeza de ter terminado”, encerra António David.

António David (Tono), Luís Guerra (Patinhas) e Amílcar Moreira (Mica)

30 de abril de 2010

UM PORTUGAL PROFUNDO

Abandono, pobreza e desertificação, assumem-se como realidades no diário de viagem de um jornalista que caminha há mais de 2 anos sobre um país de extremos


Em Fevereiro de 2008, Nuno Ferreira, inicia, em Sagres, uma nacional epopeia dos tempos modernos, ao decidir percorrer, a pé, um país, para uma maioria, remotamente desconhecido. “Há muito tempo que tinha vontade de fazer algo parecido, mas como trabalhava num jornal diário era-me impossível. Ao fim de 17 anos, larguei o “Público” e pude, então, realizar este projecto”, conta o jornalista.
Recentemente em Bragança, traça um diagnóstico correcto da região, sobretudo, do Parque Natural de Montesinho. “Era esse o meu objecto de observação e senti-me triste por constatar uma desertificação, pobreza e abandono rural crescentes. Casas vandalizadas, num lugar como Lama Grande; e, que a população das aldeias, vive em clima de tensão devido às limitações impostas pelo Instituto da Conservação da Natureza (ICN). Mas adorei a paisagem, os lameiros, os carvalhos e os rios que atravessam o Parque”, relata este aventureiro, que só tem pena “de ter encontrado tão pouca gente”.
Entrado no Distrito, em fins de Janeiro, Nuno Ferreira já esperava alguns condicionamentos derivados de um rigoroso Inverno tipicamente transmontano, sobretudo, no escasso contacto com as pessoas. No entanto, surpreendeu-se com o Tua, o Sabor, perto de Lagoa (Macedo de Cavaleiros), e com o Maçãs, junto a Vimioso. Mas, também, se entristeceu com o facto da paisagem nordestina não ser tão valorizada quanto deveria. “Gostei bastante do Planalto Mirandês e do esforço associativo que existe para manter viva a língua, a música tradicional e os costumes”, revela o criador do blog http://www.portugalape.blogspot.com.
Atravessar “o Portugal real ou profundo”, contactar as populações, entrevistar, fotografar, vivenciar a “nossa” realidade “com tempo e ao pormenor” são os seus objectivos. Para além de pretender publicar um livro com as suas crónicas de viagem, depois de concluída a sua jornada.
Com algumas interrupções na sua expedição, “voluntárias e involuntárias”, houve locais que marcaram este caminhante de forma indelével. “Portugal é um país pequeno, mas extremamente diversificado, com diferenças substanciais nas paisagens e nas pessoas, às vezes, apenas numa distância de 30 a 40 quilómetros. De todos os locais, sublinho o privilégio de ter conhecido aqueles que me surpreenderam, como Aljezur, Silves, Torre de Moncorvo, de Alandroal a Manteigas ou de Videmonte a Tarouca”, destaca Nuno Ferreira. A divisão do átomo para um cientista, as Ilhas Galápagos para um explorador, o paraíso para este repórter, dá-se, quando “à beleza natural, se alia a hospitalidade e o carácter das pessoas”.

Pego do Inferno - Tavira

“Após o 25 de Abril, fomos varridos por uma onda de novo-riquismo e de europeísmo militante que deixou o campo entregue à sua sorte”

No interior de uma ruralidade profunda, observando com o seu poder crítico e de síntese, próprio de um jornalista, o viajante emite a sua bem formada opinião por milhares de quilómetros de experiência, in loco. Segundo o entrevistado, o estado de abandono de algumas localidades e o isolamento de outras, nomeadamente, de aldeias e lugares, é tão grave e extenso, que se pode “estabelecer uma linha no mapa do Algarve a Trás-os-Montes e calcorreá-la a pé sem encontrar, praticamente, uma alma viva”. Esse é o real estado da Nação. “O pior é que não existem nem estratégias, nem ideias, para o país que não contemplem mais betão. Seja para um novo aeroporto ou para mais auto-estradas, servirão, apenas, para esvaziar ainda mais o interior”.
Nesse sentido, Nuno Ferreira defende um lucro proveniente da natureza, das culturas regionais e do património histórico. “A Mãe-Natureza sustenta a permanência do homem neste planeta. Num futuro próximo, a nossa saúde dependerá também da conservação de um dos bens mais preciosos à face da terra, o património histórico e natural dos nossos antepassados geológicos”, salvaguarda.
“Desde a Costa Vicentina até ao Parque Natural de Montesinho, encontrei paisagens belíssimas por todo o Portugal, pois tive o privilégio de atravessar o Alentejo na Primavera, com papoilas a despontar em campos saturados de vermelho, de ver o Outono a tingir as folhas dos carvalhos em Manteigas, ou de chegar ao topo da Serra de Montemuro e ver o Douro de um lado, o mar do outro e a Serra da Estrela do lado oposto”, ilustra o repórter, quem tem vindo a efectuar o registo fotográfico de toda a expedição.
Esta alma de viajante, não distingue gentes, se uns são melhores ou piores que outros. Prefere, antes, considerar, por base, o povo português como sendo hospitaleiro. “Existem povoações e regiões, onde, por circunstâncias várias, as pessoas podem estar menos receptivas. Basta existir uma taxa de desemprego maior ou ter havido um ou dois assaltos recentemente, para que alguém de mochila às costas não seja tão bem recebido. Mas eu gosto de quebrar o gelo e de conviver com as populações, onde quer que seja. E é isso que eu tenho feito!”
Nuno Ferreira, ainda tem um longo percurso pela frente. Chaves, Barroso, Terras de Basto, Parque Natural do Alvão, Marão, Grande Porto e Minho, é a rota que lhe permitirá selar com um êxito retumbante este seu empreendimento. O destino final será Lamas de Mouro, na Serra da Peneda, e a meta temporal, o Verão que aí se avizinha.

Gois - Santa Luzia

Biografia de um explorador

Nuno Ferreira nasceu em Aveiro, no ano de 1962, licenciando-se em Comunicação Social na cidade de Lisboa. Começou por colaborar no Expresso, de 86 a 89, ano em que integrou o jornal Público, onde se manteve até 2006. Regressou ao Expresso, publicando crónicas do "Portugal A Pé" na Revista "Única" em 2008. Ao terminar a sua colaboração com o semanário, continuou viagem, com a criação de um blog. Actualmente, não conta com qualquer tipo de apoio ou patrocínio. Entre várias consagrações do seu trabalho, destaca-se, em 1996, o Prémio de Jornalismo de Viagem do Clube de Jornalistas do Porto com o trabalho “Route 66 a Estrada da América”, que lhe valeu também uma menção honrosa da Fundação Luso-Americana. Um ano após, recebeu o Prémio de Jornalismo de Viagem do Clube Português de Imprensa, com o trabalho “A Índia de Comboio”. Em 2007, publicou, com Pedro Faria, o livro "Ao Volante do Poder”.