18 de maio de 2010

CATÁSTROFE AMBIENTAL

Parque de campismo do Sobre Águas em risco de abrir devido a alegada contaminação do rio provocada por extracção de areias ilegal

Na última semana de Dezembro, as fortes chuvas na região puseram a nu uma grave situação ambiental, sem paralelo no distrito de Bragança e cujas consequências se podem ter começado a revelar agora. Das antigas minas do Portelo, convertidas à posteriori para extracção de inertes, a água arrastou consigo as areias depositadas na montanha sem qualquer espécie de controlo, “inundando habitações, destruindo várias culturas, campos agrícolas” (CMB), contaminando, lameiros, rios e ribeiras e matando animais (peixes, cobras, sapos…). As populações mostram-se indignadas com a situação, sobretudo, nas zonas mais afectadas pela catástrofe ecológica, nomeadamente, a sub-bacia da ribeira da Aveleda/Baçal e a Bacia do Sabor na área protegida do Parque Natural de Montesinho.
“É uma vergonha”, suspira Francisco Tecedor, nascido em Rio de Onor, mas que conhece a Aveleda como a palma das suas mãos, há mais de 60 anos. “Aqui morreu tudo e não ficou nada! Antes, isto era um rio truteiro e, agora, não se vê aqui uma alma a pescar”, afirmou o agente reformado da PSP.


Em Janeiro, segundo a rádio Brigantia, o presidente da junta de freguesia de França, Amândio Costa, depois das chuvas, disse: “Basta olhar para a cor do rio para ver que é material altamente poluente, arsénicos, sílicas. A fauna piscícula da ribeira da Aveleda deve ter morrido toda. E na ribeira do Portelo há sítios onde estão depositados mais de dois metros de areão.”
As minas de volfrâmio de Montesinho/Portelo foram desactivadas há 25 anos. A empresa que, então, explorava o minério, propriedade de Manuel João Leal, cessou a actividade para dar início a outra, a extracção de inertes e areias. Contudo, conforme os documentos providenciados pela Câmara Municipal de Bragança (CMB) a respeito desta matéria, a entidade exploradora, “Minareias”, laborava sem legitimidade para o fazer e, em consequência da extracção de inertes, provocou avultados prejuízos ambientais.
Segundo a população, como o rio Pepim está contaminado, assim está o rio Sabor, cujo curso de água atravessa o parque de campismo do Sobre-Águas, pertença do INALTEL, colocando a sua abertura, inicialmente, prevista para 7 de Maio, em risco.

“Não faz sentido abrir o parque naquele estado. Se dizem que a água está própria para beber, que a bebam eles”

Noutros documentos fornecidos pela CMB ao Jornal Nordeste, relativos aos “Impactos negativos do arrastamento, deposição e circulação de sedimentos na sub-bacia da ribeira da Aveleda/Baçal, Bacia do Sabor – Parque Natural de Montesinho”, de 23 de Maio, pode ler-se num dos pontos: “Relativamente à GNR – SEPNA, o sr. oficial coordenador, Major Amândio Martins, informou constatar que do relatório enviado pela ARH – Norte, da análise da água, resultou a indicação de a água ser favorável ao consumo…”.
Tentámos contactar, por diversas vezes, o presidente da Administração da Região Hidrográfica (ARH) do Norte, António Guerreiro de Brito, numa tentativa de saber a quem imputar responsabilidades no caso de algo acontecer durante a época balnear relacionado com o estado da água, mas sem sucesso.


Segundo o responsável pelo Pelouro dos Parques de Campismo do INATEL, Luís Ramos, a situação coloca em risco ou adiou, pelo menos, a abertura do parque de campismo, já que o ano transacto abriu em Abril. “Estamos bastante preocupados! De tal forma que, o parque  não abrirá antes de 20 de Maio, enquanto não tivermos a total confirmação de que a água está em plenas condições. Entretanto, pedimos, já, um parecer à CMB e aguardamos por uma resposta”.
Para além dos postos de trabalho em perigo, caso o parque de campismo não abra, também César Alves, a explorar o bar do Sobre-Águas, desde Maio de 2009, e com mais um ano de contrato, pode sair lesado.
“O parque até pode abrir, mas conforme está o rio e sem saber em que condições se encontra a água, se as pessoas podem ou não tomar banho, eu não abro o bar. Só se for para ter mais prejuízo… Quem é que vai para lá?”, questiona o empresário. Revoltado com a situação, declara: “Nem sei se podemos lavar as mãos! Se alguém apanhar uma doença, de quem é a responsabilidade? Não faz sentido abrir o parque naquele estado. Se dizem que a água está própria para beber, que a bebam eles”.


Guilhermina Garcia, da Aveleda

“O rio está assim devido às minas do Portelo. Desde o mês de Dezembro que isto está uma miséria, uma porcaria… Matou os peixes e até as rãs e as cobras! A água não está boa nem para as crias, nem para as galinhas! Os animais morrem se beberem dessa água!"


Francisco Tecedor, de Rio de Onor

“Deixou de haver peixe quando começou a vir uma água verde. Eu tenho animais aos quais só dou água da rede. Nesta altura, deveria haver aqui muitos sapos a transitar de um lado para o outro, bem como trutas de 50 cm, mas nem vê-las!"



A GNR SEPNA, na voz do Capitão Silva Azevedo, declarou ao Jornal Nordeste que visitas periódicas às extintas minas têm sido levadas a cabo pelos seus militares no sentido de garantir a não laboração da entidade exploratória. No entanto, se não existe ou não deve ser permitido qualquer tipo de actividade, dada a sua "ilegalidade", o veículo pesado que se encontra no local, mais uma pickup de caixa aberta, indiciam fortes probabilidades de estar a acontecer precisamente o contrário.

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